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“Maradona é Deus” e faz argentinos viverem em eterno pecado

Gravura mostra Maradona tocando a mão de Deus, com refência á obra de Michelângelo no teto da Capela SistinaMaradona 60 anos: gravura mostra o encontro da Mano de Diós com a Mão de Deus

Maradona é deus na Argentina. Alcançou tal status em meros 4 minutos. Nesse espaço de tempo, em 22 de junho de 1986, num jogo de Copa do Mundo contra a Inglaterra, ele foi arrancado de sua condição humana e alçado irrevogavelmente ao status divino. 

Pense no seu ídolo. Se você é flamenguista, é quase certo que seja Zico. Botafoguense? Provavelmente ame Garrincha sem jamais tê-lo visto jogar. Gremista? Renato. Colorado? Falcão. São Paulino? Rogério Ceni. 

Ainda que amor seja algo subjetivo e impossível de mensurar, o sentimento que você tem por seu ídolo está a dezenas de anos-luz de ser algo similar ao que os argentinos têm por Diego Armando Maradona.

“Não terás outros deuses diante de mim”, diz o primeiro dos 10 mandamentos. Pois os hermanos pecam, e o fazem felizes. Maradona não é um mero craque, tampouco um reles ídolo. Ele é alvo de devoção divina na Argentina, onde santificarão seu nome ao longo de todos os séculos. Amém.

Nesta análise, é importante não se prender ao jogador. Ainda que ele esteja na primeira prateleira dos astros do futebol, você enumera vários melhores que ele. Pelé, é claro, e seu conterrâneo Messi, são os exemplos indiscutíveis. Você pode dizer nomes como Zidane ou Cristiano Ronaldo. Que seja. Não é por aí que se analisa a grandeza de Maradona.

Malvinas 

Soldados britânicos, armados e em pé, mantém soldados argentinos rendidos, sentados, como prisioneiros na Guerra das Malvinas
Soldados britânicos mantém soldados argentinos como prisioneiros

A melhor explicação sobre o status divino de Maradona é a do jornalista Claudio Zaidan, na Rádio Bandeirantes de São Paulo: a de que o amor pelo camisa 10 surgiu por ele ser um herói de guerra. 

Para entender como isso aconteceu, é preciso politizar a questão. E, lamentamos informar,  futebol se politiza, e não é pouco. Então vamos falar da Guerra das Malvinas.

Políticos populistas costumam eleger inimigos para conclamar a população em torno de seu projeto de governo. Em 1983, o governo militar argentino estava com baixa a popularidade e, numa estratégia insana, resolveu reclamar a soberania sobre as Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos) um dos territórios ultramarinos administrados pelo Reino Unido. Resumindo: resolveram guerrear contra a Inglaterra. 

A invasão ocorreu no dia 2 de abril. Entre o Reino Unido mobilizar tropas, atravessar o Atlântico e desembarcar nas Malvinas foram 23 dias. Em 14 de junho, 10 semanas depois e com 650 soldados mortos, a Argentina se rendeu. 

Se por um lado, a derrota culminou no fim da ditadura militar, por outro expôs os argentinos a uma humilhação global. O bem maior dos hermanos, seu orgulho, fora atingido em cheio.

Copa de 86

Maradona toca a bola com a mão. Na foto há ainda o goleiro Shilton
Maradona faz o gol contra a Inglaterra com La Mano de Diós

E eis que, três anos depois, na Copa do Mundo de 1986, Argentina e Inglaterra se reencontram. O jogo era válido pelas quartas-de-final. 

Nem de longe era a melhor seleção argentina da história. Era um time com muita força e disposição física. Os três zagueiros, Brown, Ruggeri e Cicuffo, e os volantes Enrique e Batista davam essa característica ao time treinado por Carlos Bilardo. A técnica do time se resumia, basicamente, ao veterano atacante do Real Madrid, Jorge Valdano, e a Maradona. 

O time fazia uma boa campanha. Não foi cabeça de chave, e por isso caiu no grupo da campeã Itália, com quem empatou por 1 a 1. Com duas vitórias – sobre Coreia do Sul (3 a 1) e Bulgária (2 a 0) – passou em primeiro lugar. Mesmo assim, encarou um clássico nas oitavas de final, contra o Uruguai. Venceu por 1 a 0 e entrou na rota dos ingleses.

A Inglaterra tinha um time muito bom, com o goleiro Peter Shilton, o ótimo meia Bryan Robson e um ataque poderoso com John Barnes e o artilheiro daquele mundial, Gary Liniker. 

Maradona, até ali, tinha feito apenas um gol na Copa. Ainda que tenha sido contra a Itália, fazia um Mundial relativamente discreto. Até aquele momento.

Deus em quatro minutos

O que importa daquele Argentina x Inglaterra aconteceu em meros 4 minutos. Nesse espaço de tempo, entre o quinto e o nono minuto do segundo tempo, Maradona foi arrancado de sua condição humana e alçado irrevogavelmente ao status de divino. 

Naquela tarde de 22 de junho, no Estádio Azteca, o mesmo onde 16 anos antes a majestade de Pelé fora eternizada, Maradona ascendeu quando pôs os ingleses de joelhos no gramado. Se as Malvinas continuariam a ser Falklands, dentro das quatro linhas a supremacia era argentina. Fora delas, o orgulho estava restaurado. 

Primeiro com a famosa “Mano de Dios”. Maradona recebe na meia esquerda e passa por um, por dois, e por três ingleses e toca para um companheiro na entrada da área. Este se enrola com a bola e a deixa passar; Só que o zagueiro inglês se enrola ainda mais e, na tentativa de cortar, chuta a bola para o alto, na direção de Shilton. Maradona, 20 centímetros mais baixo que o goleiro simplesmente corre na direção da bola, cerra o punho esquerdo e o ergue, no mais emblemático símbolo de resistência da história da humanidade, para tocar a bola para o gol. 

O mundo inteiro viu que foi com a mão, menos o árbitro e o auxiliar.

Drama e tango

Um gol de mão, dramático, libertador, vingativo, já seria suficiente por seu simbolismo. Uma espécie de ato de luta, um soco direto no queixo do opressor. Mas foi apenas uma parte.

Aos 9 minutos,  veio o tango, a magia, a plasticidade. a genialidade.

Maradona recebe a bola cercado por dois ingleses. Com uma puxada para trás e um giro, ele arranca pela ponta direita, sem deixar o terceiro inglês se aproximar. Um corte para o meio e o quarto inglês fica pelo caminho. Outro corte para a direita, e o quinto inglês se vai. Um, dois, três, quatro, cinco passadas e mais um corte, dessa vez em Shilton. Gol aberto. Nem a entrada por trás do sétimo inglês e nem a aproximação do oitavo impedem que o toque de perna direita conduza a bola para o gol. 

O que veio depois foi o título daquela Copa. E Maradona dando show contra belgas e alemães, o que só consolidou a condição de Diós. A história, no entanto, já estava escrita. O resto é prólogo.

Divindade incontestável

Carregados por várias pessoas, Maradona ergue a Copa do Mundo de 1986
Maradona ergue a Copa do Mundo de 1986

Messi, nasceu um no de dois dias depois daquele 22 de junho de 1986. Mas nbasceu fadado a jamais ser o maior ídolo da história da Argentina, por mais que seja o único jogador que de fato tenha se aproximado de Pelé. 

O 10 do Barcelona não tem culpa disso. Mesmo que ganhe a Copa de 2022, não o fará em circunstâncias sequer parecidas. Dificilmente terá notas de tango e drama, como gostam os hermanos. 

Existe todo um cenário que levou Maradona á uma condição essa condição sobre-humana. Problemas extra-campo? Drogas? E dai? 

Repito. E dai?

Tente usar seus argumentos com um argentino se quiser. Não adianta nem apresentar o primeiro mandamento.  

Maradona é Dios.

MARADONA É DEUS

Maradona é Deus

Fernando Badô

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