Perfis

A Pedra Fundamental da Sapucaí

Em alemão, Stein significa pedra. É um sufixo de vários sobrenomes de origem germânica. Nada mais apropriado para a voz que, mais do que marcar época, inaugurou uma era dourada.

É verde-e-rosa a minha emoção

Carioca de nascimento e de coração, Paulo Stein nasceu em 6 e outubro de 1947. Tricolor apaixonado, começou no final dos anos 60 no tradicional Jornal dos Sports, o famoso jornalzinho rosa. Rosa presente em sua outra grande paixão, a Estação Primeira de Mangueira. Tal qual Cartola, um tricolor verde-e-rosa.

Matéria de Paulo Stein no Estadão
A primeira matéria assinada no Estadão

Ficou no JS até 1969, quando se transfere para a sucursal do Rio do Estadão. Sua primeira matéria assinada no periódico paulista é no último dia do ano de 1970: esmiuçava todo o projeto do Corintians (sim, na época grafado sem h) para o ano seguinte. Mesmo ano em que chega à Rádio Tupi, onde permanece até 1976, quando vira locutor da Nacional. Ainda escreveu no Jornal O Fluminense de 1978 a 1981.

Matéria em O Fluminense
Jornal O Fluminense destaca ate que Stein seria papai.

Um ponto de luz surgiu

O ano de 1977 marca o início do craque onde ele melhor atuava. É quando faz parte da primeira equipe da TV Bandeirantes em terras cariocas. Na emissora, além de locutor esportivo, se torna apresentador do programa Bola na Mesa, comandando um time que tinha Márcio Guedes, José Roberto Tedesco e um certo Galvão Bueno. Durante a Copa de 1978, na Argentina, Stein intercalou as funções de repórter e comentarista; bem antes da palavra virar moda, já se fazia um polivalente.

Um ano após a tragédia no Sarriá chega aos lares cariocas a Rede Manchete. Através do Canal 6, o empresário Adolfo Bloch levava uma programação diversificada e que buscava, mais do que atingir todos os públicos, incomodar a toda poderosa Vênus Platinada. Em vários momentos conseguiu. E muito se deve a competência e carisma de seu principal locutor.

O ano inteiro é samba e Maracanã

Não há dúvida alguma de que a emissora da Rua do Russel, número 804, foi o lugar onde o dono de um sorriso muitas vezes sarcástico se tornou o ícone de uma geração. E não há nenhum exagero nisso. Trazido para a empresa pelo produtor Maurício Sherman, se tornou o principal narrador da casa. Ao lado da enciclopédia (e também tricolor) Alberto Léo, apresentou o diário Manchete Esportiva, rivalizando com Fernando Vanucci além do carnaval. Participou da cobertura de três Jogos Olímpicos e outras três Copas do Mundo. Por um erro administrativo que impediu a emissora de arcar com a segunda parcela de pagamento dos direitos de transmissão, não pôde gritar “É tetra!” para todo o Brasil em 1994.

Levou alegrias às torcidas dos quatro principais clubes da Cidade Maravilhosa. O tri do seu Fluminense nos primeiros anos de Manchete; além do Estadual rubro-negro em 1986, a Taça Guanabara de 1989, única conquista de Telê Santana em sua passagem pela Gávea; e o bicampeonato da SeleVasco de Romário, Cocada & cia. Mas talvez aquele que tenha ficado na memória de quem acompanhava o futebol carioca em seus áureos tempos seja outro: o fim do jejum alvinegro de vinte e um anos pelo pé direito de Maurício, em junho de 1989.

Dividiu bancada com gente do quilate de Zagallo, João Saldanha e Gérson. Na ESPN trazia as notícias do Rio de Janeiro com seu estilo irreverente peculiar. Seu último trabalho na telinha foi no Sportv, onde narrou de tudo um pouco. Sempre com precisão e carisma.

É carnaval, é folia

A geração que se acostumou a colocar na Manchete às 20 horas de sexta para acompanhar o Grupo de Acesso (saudade quando esse não queria ser mais do que isso) talvez tenha sido a última apaixonada por escolas de samba. Era uma lei de Tostines, já que a audiência gerava uma busca pela excelência e vice-versa.

Tostines, aliás, que era um campeão de vendas em 1984, quando a Globo deu de ombros para o carnaval do Rio, alegando que a divisão do desfile em dois dias atrapalhava sua grade. Bloch conseguiu a exclusividade a transmissão da festa, em uma manobra que cada vez ganha novas versões. Assim, quem anunciou o primeiro desfile na Passarela do Samba da Marquês de Sapucaí foi a inconfundível voz de Paulo Stein.

Todo mundo nasceu nu

Em quatorze anos de transmissão, com algumas paradas forçadas, o locutor se tornou a informação de quem não via o que acontecia fora do que as câmeras mostravam. Carregado de tensão, bradou “INCÊNDIO NO CARRO DA VIRADOURO!” no momento em que o estupendo carro dos ciganos das neves era consumido pelas labaredas, em 1992. Dois anos antes, consolado por um Pamplona visivelmente comovido, retratava angustiado o drama mangueirense ao estourar o tempo. Ao perceber que o desfile ia pro brejo, o genial comentarista chutou o balde “não vou falar mais porra nenhuma!”. Obcecado por regulamentos, segundo ele mesmo afirmou em um papo com o jornalista Anderson Baltar, Stein destrinchava os desfiles com lupa afim de informar ao público eventuais penalidades. Assim foi com a famosa “genitália desnudada” da Beija-Flor em 1992, gerando uma irritada reclamação de Joãosinho Trinta durante a transmissão. Com a educação costumaz, Paulo discordou e afirmou que a escola seria punida. Dito e feito.

Era o mestre de cerimônias do maior time de comentaristas da festa de Momo. Entre os que fizeram companhia estão Mestre Marçal, Albino Pinheiro, Sérgio Cabral, Maria Augusta, Terezinha Monte entre outros. Calma. Guardei quatro nomes para o fim pois, na minha memória afetiva, formaram o que eu costumei a me referir como Turma da Manchete: Roberto Barreira, Haroldo Costa, Zé Carlos Rêgo e Fernando Pamplona. Quanta nostalgia! Com Pamplona tinha uma relação quase que paternal. Era comum, por exemplo, o carnavalesco assumir o comando da transmissão enquanto Paulinho, como o próprio mestre o chamava, ia dar, digamos, uma aliviada nas necessidades. Com a partida do locutor, daquele “time titular”, só nos resta o genial Haroldo Costa, vacinado e com muita saúde.

Foi Paulo Stein quem colocou no papel todo o projeto da transmissão em conjunto realizado por Globo e Manchete. O famoso pool do carnaval. Não tenho dúvidas de que outras sacadas têm sua mão, como a divertida Apuração Paralela, no carnaval de 1992. Creio que já fosse uma influência do mestre Pamplona. Afinal, se “tira da cabeça aquilo que não se tem no bolso”.

Oh! Saudade, ô

Nos anos em que a Manchete fez parte da minha vida, e olha que foi além do carnaval (Changeman e Documento Especial que o digam) só tive uma frustração: não ouvir na voz de Paulo Stein a frase “A Beija-Flor é campeã do carnaval!”. Ele até gritou, em 1998, ano em que a emissora se despediu da avenida. Mas naquele carnaval, a escola de Nilópolis dividiu o título com a sua Mangueira. Convenhamos, não é a mesma coisa. Assim como muitos que nos deixaram nesse período macabro governado pela Covid (na ausência de quem o deveria fazer), Paulo Stein se cuidou e, como ele mesmo disse em uma conversa na Rádio Arquibancada no início da pandemia, estava quietinho em casa. Só que a roleta russa diária o atingiu dias antes da sua vacinação. Como se fosse uma filha-da-putagem gigante do destino.

Ao longo da vida aprendi que ser apaixonado por pessoas e instituições cobra seu preço. Por mais que a memória nos abrace, ela também nos corrói um pouco, é aquele espaço de tempo em que a dor vai se transformando em saudade. Um samba é que por ironia, nem de longe é dos mais memoráveis, tem uma frase que é recorrente na minha caminhada “Nostalgia, tomou conta de mim…”.

Pô Paulinho…
Relógios Mondaine informam o tempo de desfile: ainda tem chão, pode ficar por aqui!
Colocar os desfiles da Manchete no YouTube e não ter a ilusão de um carnaval de 2022 com teu comando? Sei não…

Que baita pedrada, parceiro…

Otávio Pilz

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