Histórias

Uma carta de despedida ao maledetto Bambino D’oro. Arrivederci, Paolo Rossi

Morreu Paolo RossiPaolo Rossi, maior culpado para Tragédia do Sarriá, morreu em 9/12/2020.

O que você fez, não se faz. Você tirou a pureza do meu coração. Se tornou a primeira pessoa a quem odiei na vida. Carreguei o rancor por anos, até perceber que foi você , Paolo Rossi, quem me fez amar o futebol

Você me tirou tudo o que eu tinha! E eu era só uma criança de cinco anos de idade. Como você pôde? 

Eu mal tinha visto futebol até então. Quase obrigado por minha mãe, eu assisti ao Argentina e Bélgica que abriu aquela Copa de 1982. Gostei. E depois de você, nunca mais deixei de amar o futebol. 

O que eu tinha até você aparecer era a vontade de ver o Brasil vencer a Copa. Mas era aquela Copa. 

Batismo futebolístico

Eu me lembro com relativa clareza do primeiro jogo do Brasil, contra a União Soviética. Na casa do meu avô, em Itanhaém, eu lhe perguntei: “quem é esse de barba?”. Incrivelmente orgulhoso da minha indagação espontânea, o velho espanhol respondeu: “É o Sócrates. Joga no Corinthians e é o capitão do Brasil”. 

Corinthiano eu já sabia que era, mas a centelha do futebol ainda não fora acesa até o começo do Mundial da Espanha. E algo foi acontecendo.

Foi o próprio barbudo quem conseguiu empatar aquele jogo duríssimo, superando o goleiro Dasaev, de quem eu tinha pego medo ao longo da transmissão, porque o narrador (eu não sabia, mas era Luciano do Valle) só falava dele. E foi, aprendi ali, o que chamamos de golaço. 

E logo depois veio o de Éder, que foi o gol, também aprendi ali, da virada. 

Depois dali, eu só queria ver aquele Brasil campeão.  E fomos atropelando um por um. Treze gols eu comemorei até o 5 de julho de 1982. 

Desencantou

Você não tinha feito nada na Copa. Muito menos gol. De repente, resolve desencantar (quantos termos do futebol eu aprendi) justamente contra o Brasil. E não importava quantos gols a gente fizesse, você sempre faria mais um. Era seu dia de entrar para a história do futebol. Maledeto.  Você é o culpado pela Tragédia do Sarriá.

O que você fez, não se faz. Você tirou a pureza do meu coração. Se tornou a primeira pessoa a quem odiei na vida. Carreguei o rancor por anos. Você não teve sequer a decência de eliminar a França no México, em 1986, e nos dar o direito de revanche. 

Rancor e perdão

Até na alegria eu lembrei de você. Em 1994, quando finalmente, aos 17 anos, eu vi o Brasil vencer a Copa, bem contra a sua Itália, eu chorava de alegria e me perguntava por que você não estava ali para sofrer a vingança. 

Mas foi na festa que comecei a te perdoar. Passado o desespero de ser campeão, eu pude pensar que, apesar de ter desgraçado a minha vida quanto eu tinha só 5 anos, você tinha dado alegria a algum jovem italiano de 17, que também poderia ter odiado Pelé e sua turma desde 1970. 

Ao longo dos anos eu aprendi sobre você. E vi que ali em Barcelona, no Sarriá, contra o Brasil, era na verdade o dia do seu resgate, da sua redenção.

Paolo Rossi morreu
Rossi fez 3 gols contra o Brasil em 1982. Era o 5o jogo dele na Copa, e ainda não havia marcado.

Hoje, 38 anos depois, eu estava em paz com você. Até a notícia da sua morte, que pra mim veio como se arrancassem um pedaço grande da minha própria história, pois só nesse 10 de dezembro de 2020 (aliás, duas vezes o número da sua camisa), eu realmente percebi que você é o “culpado” por eu amar futebol. 

Porque é no amargor da derrota que surge a ânsia pela vitória. E eu queria vencer por sua causa, Paolo Rossi. E hoje, assim como aquele estádio Sarriá, você já não existe mais. 

Vai com Dio, maledetto. Obrigado, de coração, por ter me feito te odiar, Bambino D’oro. 

Fernando Badô

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