Histórias

Um templo com corpo, alma e cheiro… de churrasco: os 90 anos do Centenário

Estádio CentenárioEstádio Centenário

Saudamos no mês passado o aniversário de 70 anos do Maracanã. Nada mais justo por ter se tratado de um templo do futebol mundial. Não se assustem. O tempo verbal está mesmo no pretérito. E de propósito. Depois do assassínio de corpo e alma a que foi submetido o Maracanã (tão bem retratado pela fera Arthur Muhlemberg aqui na Revista Barbosa), templo, templo mesmo, com tê maiúsculo, só nos resta um aqui na América do Sul. Refiro-me ao Estádio Nacional, de Montevidéu, o palco da primeira final de Copa, um dos símbolos de pertencimento do povo uruguaio, e que hoje completa 90 anos.

Um palco que já mereceria um status épico pelo simples fato de ter recebido um histórico Flamengo, na então inédita conquista da Libertadores de 1981. Mas aí ficaríamos limitados apenas ao seu aspecto esportivo. Importante, sim. No entanto, menos relevante quando constatamos que aquele gigante é uma pessoa como nós, que respira e tem um coração pulsante. Só quem lá esteve, e pôde vivê-lo mais do que simplesmente sentar em sua arquibancada e degustar uma boa peleja, entenderá o que digo nestas linhas. O Centenário faz aumentar a pressão, arrepia os pelos. Parece aspergir uma espécie de ectoplasma que nos rejuvenesce e nos fortalece de tal maneira que só assim para entender aquele entusiasmo enlouquecido que se percebe nas bancadas.

Estive ali em três oportunidades. Numa delas, a que me emociona mais profundamente, eu era praticamente um uruguaio. Estava em Montevidéu havia algum tempo, na cobertura da ótima seleção do país que viria disputar a Copa do Mundo do Brasil, em 2014. Comigo, o competente André Hernan. Formávamos a dupla que levava informações da Celeste para os espectadores do Sportv. Já havia me adaptado à gente e aos costumes do país. Sou kardecista. Fiquei com uma enorme impressão de que aquele ambiente me pertencia de alguma forma.

Eu, com a bandeira uruguaia: orgulho
Eu, com a bandeira uruguaia: orgulho

Fui para o estádio muitas horas antes do amistoso contra a Eslovênia, em 4 de junho de 2014. Havia tempo suficiente para um necessário e fundamental périplo pela maior casa do futebol uruguaio. Na chegada, o povo nas ruas, cerveja nas mãos, bandeiras nos ombros. Aquele clima latino nas veias que acordaria até um defunto! Ainda do lado de fora, as placas que denotam o imenso orgulho daquele povo pelo seu estádio, ou por que não dizer pela sua casa: a placa do registro da inauguração há 90 anos e, claro, outra para imortalizar o feito de 1950.

Dei a boa e velha carteirada de imprensa, e parti pra conhecer as entranhas do velho Centenário. Minha carteira me permitia circular em áreas pra lá de restritas, como o gramado e os vestiários. Antes de começar o trabalho, queria ao máximo viver aquele momento, pois seria uma única oportunidade de mergulhar na alma daquele gigante de concreto.

Galeria: 90 anos do Centenário

Apenas alguns passos e comecei a sentir um cheiro. Pois é, o tradicional estádio tem um cheiro… de churrasco. Ou assado, como eles falam. Após caminhar pouquíssimos metros, logo se percebia uma imensa churrasqueira com vários tipos de carne e o bom e velho chimichurri para ajudar no tempero. Logo pensei: estou em casa. Quanto mais se andava, mais se tinha certeza de que aquilo nada tinha a ver com o nosso atual Maracanã. Era muito melhor!!!

Nas paredes, pinturas de renomados pintores uruguaios, todas como motivos futebolísticos; e fotos, muitas fotos, dos grandes ídolos e dos momentos imortais do futebol uruguaio. Eram imagens enormes, dignas do gigantismo de Ghiggia, Maspoli, Andrade, Nasazzi, Varela… Caminhar pelas veias e artérias daquele verdadeiro palácio faz a gente pensar: uma nação com apenas 3,6 milhões de habitantes construir um passado de glórias tão auspicioso… será que realmente o Brasil é o país do futebol?

Nasazzi (à direita), um dos próceres do futebol uruguaio

Em meio a mordidas nos nacos de carne e goladas numa soda limonada ruim pra cacete (este o único ponto negativo da visita), chegou a hora de acompanhar a partida. Olha, confesso que pouco percebi a bola rolar. A Celeste venceu por 2 a 0, mas minha atenção era inexoravelmente atraída pelos sons e imagens que NÃO vinham do gramado.

A eterna emoção infantil
A eterna emoção infantil

Imaginar que há 90 anos aquele povo vive isso praticamente todas as semanas. Imaginar que aqui, no Rio, tivemos a mesma chance, mas que nos foi surrupiada por marginais de terno e gravata. Imaginar que aquilo que poderia ser apenas um estádio de futebol praticamente se transforma numa razão de viver pra tanta gente. Por essas e por outras, parabéns, Centenário. Que em 2030 possamos nos ver por aí!

Fred Soares
Jornalista, trabalhou nos seguintes veículos: Jornal dos Sports, EXTRA, Globo/SporTV e Esporte Interativo. Atualmente, é editor-executivo da Revista Barbosa e apresentador do Jogo Falado, da 94FM do Rio.

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