Histórias

Trinta anos sem Mário Américo, o Obaluaê do futebol brasileiro

Ao lado do amigo Pelé, o curador comemora o tri em 70Ao lado do amigo Pelé, o curador comemora o tri em 70

Era dele a nobre missão da cura e também a do zelo do sorriso de milhões de brasileiros que contavam com a presença dos seus jogadores na cancha.

Futebol. A etimologia da palavra já indica que se trata de um jogo de bola praticado com os pés. Não é à toa que alguns de seus ícones carregam como alcunha “patada atômica”, “pés de vento” ou “anjo das pernas tortas”. Por tudo isso, quem diria, surpreende que um dos nomes mais importantes, relevantes e folclóricos desse esporte não atuasse com a extremidade dos membros inferiores que nos torna bípedes humanos. Aos mais apressados, logo digo: não se trata de um goleiro. As mãos eram, sim, o instrumento de trabalho dele. Mas, em vez defender bolas, seu uso era para uma atividade pra lá de nobre: a cura. São trinta anos sem Mário Américo.

Neste estranho 2020, dos 70 anos do Maracanazo e dos 50 anos do tri, nunca é demais reconhecer o toque de brasilidade que Mario Américo concedeu às maiores conquistas do esporte brasileiro. Homem humilde vindo do interior de Minas, que estava fadado a brilhar com as mãos. Pensou que seria com batidas nos sapatos alheios, como engraxate; depois, com outras batidas. Desta vez, nas caras de adversários sobre os ringues de boxe. Mario não sabia mas suas mãos, por maiores que fossem, teriam a mesma finalidade das mãos de fada – produzir encantamentos.

30 anos sem o "Obaluaê"

Nessas andanças da vida, Mário virou massagista. E logo num Vasco da Gama que enchia de poesia o futebol brasileiro. Quando viu, estava numa Copa do Mundo. A de 1950. Aquela que até hoje nos machuca. Talvez tenha sido a única dor não amenizada por ele, a de tantos corações dilacerados com o gol de Ghiggia.

Às vésperas da Copa seguinte, a mão que afagava também bateu. Um soco na cara do presidente da Portuguesa, no Rio, durante uma confusão num jogo contra o Vasco, fez com que o dirigente da Lusa o contratasse tempos depois. A fidelidade aos atletas lhe rendeu um novo amor. A Portuguesa entrou definitivamente no seu coração.

Veio 54, 58… Veio Pelé. São poucos que podem repetir o que, mais tarde, virou refrão de um grande samba portelense: “auê, eu sei / eu sei que sou o amigo do Rei”. Àquela altura, o massagista ganhou ares de entidade. Era um Obaluaê a serviço de craques. Era dele a nobre missão da cura e também a do zelo do sorriso de milhões de brasileiros que contavam com a presença dos seus jogadores na cancha. Poucos antes do mundial da Suécia, embora não jogasse, Mario Américo matou a bola no peito e disse: “deixa comigo que o garoto vai ficar pronto”. O garoto em questão era aquele camisa 10, conhecido hoje por 10 em cada 10 habitantes do planeta Terra. Até hoje, Pelé o saúda. Tal um devoto que abaixa a cabeça e reconhece a solidariedade de um Preto Velho na hora do sufoco.

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Exagero? Nem tanto. Quem pensa a vida além da caixa sabe que as mãos têm o poder de irradiar fluidos eletromagnéticos que levam ao alívio do corpo, mas também da alma. Os jogadores enxergavam e sentiam isso. Podiam abrir mão de tudo. Menos do Tio Mario.

A vida seguiu. Tio Mario não conseguiu o milagre de livrar Pelé dos infortúnios de 62 e dos pontapés de 66. No entanto, esteve em 70 a lhe mandar aqueles fluidos, lembram? Deu no que deu. A despedida internacional veio em 74. Viu um de seus sobrinhos ser sacaneado, e sofreu a covardia do boicote. Era chegada a hora de sair de fininho, antes que a mão que afagava estapeasse alguém outra vez.

Depois disso, foi a vez de as mãos que cuidaram de Zizinho, Pelé, Garrincha, Didi, Tostão, Jairzinho, Rivelino e Zico passarem a ser propriedade exclusiva de Dona Yara, o seu grande amor. Até que viesse a definitiva separação, há 30 anos. Ele, que muito fez por tantos com as suas mãos, agora descansava sobre outras… as de Deus.

Fred Soares
Jornalista, trabalhou nos seguintes veículos: Jornal dos Sports, EXTRA, Globo/SporTV e Esporte Interativo. Atualmente, é editor-executivo da Revista Barbosa e apresentador do Jogo Falado, da 94FM do Rio.

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