Histórias

O lado sujo e torpe do homem detrás do véu da festa pela Copa do Mundo

A pandemia intensificou a desumanidade na sede da Copa do MundoA pandemia intensificou a desumanidade na sede da Copa do Mundo

O que antes era só prazer ganhou uma dose cavalar de repugnância quando soube dos dejetos que eram lançados para debaixo do tapete da competição futebolística que nasceu para fomentar a união entre os povos.

Sou um louco (ainda) pela Copa do Mundo. Desde moleque. Primeiro, in loco, como torcedor. Depois, nas várias coberturas jornalísticas. Mas o que antes era só prazer ganhou uma dose cavalar de repugnância quando soube dos dejetos que eram lançados para debaixo do tapete da competição futebolística que nasceu para fomentar a união entre os povos. Décadas de corrupção, muitas delas com um brasileiro à frente, envergonharam a entidade que rege o esporte. Agora, vêm do Catar, sede do próximo Mundial, notícias que atropelam qualquer conceito de humanidade e de amor ao próximo, em nome do dinheiro gerado pelo torneio. A Anistia Internacional tornou público os maus tratos sofridos por trabalhadores imigrantes que, sob suspeita de estarem com a COVID-19, foram simplesmente detidos e expulsos do país sem nenhum tipo de amparo ou assistência médica.

A organização entrevistou 20 nepaleses que atuavam nas obras de urbanização do país com vistas à Copa do Mundo. Segundo eles, a polícia os abordou sob a alegação de que teriam de fazer o teste para o Coronavírus. No entanto, ao serem levados, foram lançados em centros de detenção e, em seguida, expatriados, mesmo em condições legais no país. A Anistia Internacional desconfia de que o governo catari temesse que estes trabalhadores pudessem ser vetores da doença e, por isso, teriam tomado essa medida espúria e arbitrária. O país, ao lado da Arábia Saudita, é o que possui o maior número de casos dentre as nações árabes. Ainda de acordo com o relato dos detidos, muitos foram amontoados em ônibus e levados para a prisão, onde seus documentos e telefones celulares foram confiscados.

Trabalhadores das obras dos estádios para a Copa foram detectados com COVID-19

Os trabalhadores teriam ficado detidos em condições desumanas ao lado de dezenas de outras pessoas de vários países, mantidos em celas superlotadas, sem camas e não receberam comida.  “A prisão estava cheia de pessoas. Recebíamos um pedaço de pão por dia, o que não era suficiente. Todas as pessoas foram alimentadas em grupo, com comida jogada no chão. Alguns não foram capazes de pegar a comida por causa da multidão”, afirmou um dos nepaleses.

Ainda de acordo com a Anistia Internacional, após essa aglomeração forçada – um crime, a se considerar as indicações da Organização Mundial de Saúde -, entre 15 e 19 de março, os trabalhadores foram comunicados de sua expulsão do país. Receberam liberação apenas para pegarem seus pertences, mas sem se livrarem das algemas. “Fui algemado e tratado como um criminoso. Fui levado ao meu acampamento para coletar pertences, mas como eu poderia fazer isso e arrumar a bagagem se minhas mãos estavam presas?”, questionou mais uma das vítimas.

Ouvido, o governo do Catar informou que a medida foi tomada sob a justificativa de que estes trabalhadores realizavam atividades ilegais, embora não as tivesse informado. Os operários alegam que não receberam esta explicação e a Anistia Internacional, de posse dos papeis de extradição, não detectou nenhuma acusação neste sentido.

O fato é que, neste mundo maltratado pela pandemia, machuca-nos ainda perceber esse tipo de tratamento do homem pelo homem. São várias as denúncias de maus tratos a trabalhadores. Em alguns casos, levando-os à morte em razão das sub-humanas condições de trabalho, que contempla, entre vários absurdos, uma jornada de mais de mais de horas de serviço sob um calor sufocante e alojamentos em que uns são obrigados a dormir próximos aos outros, aumentando consideravelmente o risco do contágio. (veja acima o vídeo produzido pela Anistia Internacional).

Uma sujeira tão torpe, vulgar e deplorável que nos faz levantar uma questão: será que em vez de amar a Copa do Mundo, não terá chegado a hora de, em nome de um mínimo princípio de humanidade, virar as costas para ela?

Fred Soares
Jornalista, trabalhou nos seguintes veículos: Jornal dos Sports, EXTRA, Globo/SporTV e Esporte Interativo. Atualmente, é editor-executivo da Revista Barbosa e apresentador do Jogo Falado, da 94FM do Rio.

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