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Um recorde, um gerador a óleo e o Grêmio no Maracanã

A vitória gremista virou manchete do carioca “Jornal dos Sports”

O Botafogo ganhava de quase todo mundo. E não perdia de ninguém. 52 jogos. O recorde estava para ser batido. O Grêmio vencer àquela altura do campeonato tinha o peso de final de Copa do Mundo. Ou de medalha de ouro olímpica.

Tudo no Maracanã é superlativo. Ex-maior estádio de futebol do mundo, o Maraca abrigou grandes jogos, sonhos sem fim, decepções igualmente gigantes. Escolher uma partida específica é um desafio e tanto. Poderia falar da conquista da tão sonhada medalha de ouro nas Olimpíadas de 2016 ou da final da Copa do Mundo de 2014. Nas duas, tive o privilégio de trabalhar como comentarista da Bandnews FM. Profissionalmente, isso é tão grande quanto o estádio aniversariante.

Só que futebol não é razão. É a emoção que organiza e prioriza nossas memórias. Poderia falar da minha primeira vez no Maracanã, um sonolento Vasco 3 x 0 Bonsucesso em 1977, com dois gols de Roberto Dinamite. Era minha primeira vez visitando o Rio de Janeiro, entrar naquele estádio foi uma das sensações mais poderosas que posso lembrar. Mas, do jogo em si, só consegui guardar o resultado. Não poderia escrever sobre algo que não retive. Tudo o que ficou guardado foi a imensidão daquele concreto. Meu pai comprou um ingresso barato, perto da marquise. O gramado ficava pequeno, mal dava pra identificar Roberto lá de cima. Nem eu estava muito interessado. Apreciar o estádio, a torcida vascaína, o pipoqueiro, todo aquele ambiente era diferente do que costumava presenciar no Estádio Olímpico, em Porto Alegre.

O gerador além da hora

Um ano depois, a TV Gaúcha transmitiu numa noite fria de quarta-feira, 20 de julho de 1978, um Botafogo x Grêmio pelo Campeonato Brasileiro. No Maracanã. Não era um jogo qualquer. Era o “jogo do recorde”. O Botafogo, dirigido pelo velho Lobo Zagallo, defendia uma invencibilidade nacional de 52 jogos.

Eu estava bem longe do estádio, na fazenda de uns amigos da minha família em Tupanciretã no planalto gaúcho. Mas era como se estivesse naquela mesma arquibancada que vi o Vasco e Bonsucesso. A experiência de um ano antes me credenciava a um teletransporte e as emoções se misturavam. Via as imagens da torcida e pensava “não faz muito eu estava ali, sei como é”.

Precisei convencer a turma da fazenda que era fundamental para os rumos da humanidade que, naquela noite. o motor a óleo diesel do gerador seguisse funcionando após às 10 horas da noite e continuasse gerando energia elétrica na casa. Só aquela noite, precisei implorar. Eles deixaram. E fiquei vendo, sozinho, a missão quase impossível que o treinador gremista Telê Santana se propunha.

Partida tensa

Não que o Botafogo fosse um esquadrão para entrar na história. Não era. Zé Carlos, Beto, Fred, Renê e Serginho; Clóvis, Manfrini, Mendonça; Cremílson, Dé e João Paulo podia não ser um timaço, só que estava voando. Ganhava de quase todo mundo. E não perdia de ninguém. 52 jogos. O recorde estava para ser batido.

Do outro lado, um Grêmio que só tinha até então destaque local. No ano anterior, havia quebrado a sequência de oito títulos estaduais do Internacional de Figueroa e Falcão. O Grêmio veio com Corbo, Vílson, Ancheta, Vicente e Ladinho, Valderez, Jorge Leandro e Tadeu Ricci; Tarciso, Everaldo e Renato Sá.

Partida tensa. Botafogo mandando no jogo, Grêmio se segurando. No primeiro tempo, o goleiro uruguaio Corbo salvou os gaúchos. O Campeonato ainda estava na primeira fase, mas uma vitória gremista colocava o clube na liderança de seu grupo e com a classificação assegurada. Só que isso era o de menos. Era o “jogo do recorde”, o Brasil todo acompanhava aquela partida por causa disso. Vencer o Botafogo de Zagallo àquela altura do campeonato tinha o peso de final de Copa do Mundo. Ou de medalha de ouro olímpica.

Renato Sá, demolidor de recordes

Veio a segunda etapa e o Grêmio melhorou. Estava se defendendo melhor e ainda tinha a correria de Tarciso pela ponta-direita nos contra-ataques. Sozinho, eu já não estava mais em Tupanciretã. Realmente me sentia no Maracanã com aqueles garçons de churrascarias cariocas que tinham tirado folga para assistir o tricolor no Maraca. E eu junto, de certa forma. Aos 26 minutos, a jogada despretensiosa. Um tiro de meta cobrado com força por Corbo, Iura, que havia substituído Tadeu Ricci, deu uma penteada de cabeça para a ponta direita. Tarciso apareceu como o verdadeiro Flecha Negra (como era chamado) e cruzou para o meio da área. O zagueiro Fred conseguiu interceptar, mas ficou a sobra para Renato Sá.

Canhoto, ele só usava a direita para subir no ônibus. E a bola caiu justamente na destra. Chutou mascado, fraco. Gol do Grêmio. Eu não podia gritar para não acordar a casa.

Se alguém ficasse incomodado, desligavam o motor, acabava a energia elétrica, fim de jogo. Dei uns pulinhos e nem acreditei quando, na saída do Botafogo, o Grêmio recuperou a bola e mais uma vez o passe foi para Tarciso. Dessa vez o cruzamento saiu longo e alcançou o catarinense Renato Sá na esquerda. O lógico seria ele cruzar de novo para Everaldo que aparecia livre. Zé Carlos se preparou para o segundo cruzamento e ficou sem ação quando o catarinense bateu de primeira, no ângulo. Golaço e o sonho da quebra de invencibilidade cada vez mais próximo.

O Maracanã se calou, só que o tempo custava para passar. Eu já torcia em paralelo para o óleo diesel não terminar. Faltando um minuto para o fim, Renato Sá cruzou para o chute de canhota de Jorge Leandro. Aquilo já era demais, 3 x 0. O Grêmio estava quebrando a invencibilidade de 52 jogos em pleno Maracanã. E com uma goleada, ainda por cima.

Ironia máxima do destino, Renato Sá seria contratado pelo Botafogo no ano seguinte e enfrentaria um Flamengo que estava com os mesmos 52 jogos de invencibilidade. E não é que foi justamente ele quem marcou o gol solitário do clube da Estela Solitária? Ele havia quebrado duas séries invictas no intervalo de dois anos (na foto, as duas camisas do acervo de Renato Sá).

Mas isso não teve grande importância para mim. Os 3 x 0 do Vasco contra o Bonsucesso e os 3 x 0 do Grêmio contra o Botafogo tornaram o Maracanã um lugar familiar e especialíssimo pelos anos seguintes e para a vida toda. Vi ali Messi, Iniesta, Neymar, grandes jogos, disputas de títulos. Mas ninguém me fez tão feliz quanto Renato Sá naquele estádio.

Sergio Xavier Filho
Jornalista, é comentarista dos canais SporTV.

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