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Genial Mario Filho, o maior defensor do Maracanã

Mário Filho durante as obras do estádio que, alguns anos depois, passou a ter o seu nome

Meu avô levou todos funcionários do “Jornal dos Sports” para subir na marquise e no dia seguinte a manchete do Jornal foi: “A marquise não caiu”

Os criadores da Revista Barbosa pediram-me para fazer um artigo sobre meu avô Mario Filho, um dos grandes responsáveis pela construção do Estádio do Maracanã, que hoje leva o seu nome. Não é uma tarefa fácil, como nunca foi, escrever sobre um gênio, muito pelo contrário. Primeiro porque mexe muito com minha parte sentimental e depois quase tudo já foi dito sobre a sua história… mas vamos lá. Convivi com o meu avô diariamente até a noite da sua morte. Lembro-me de que nesta noite dei-lhe um beijo (essa imagem convive comigo até hoje) e fui acordado de madrugada por meu primo, falando que ele havia falecido. Talvez tenha sido o maior susto da minha vida, foi muito difícil de acreditar.

Desde que tinha uns quatro anos, sempre ouvia as proezas do meu avô, sua capacidade de criação de eventos e principalmente seu amor pelo futebol. Depois dos dez anos, comecei a conviver mais de perto com ele, antes de ele sair para o “Jornal dos Sports”. E fui sabendo aos poucos da sua história, não por ele e sim pela minha avó, já que meu avô não falava quase nada sobre ele mesmo. Através de outras pessoas da família, comecei a tomar conhecimento de sua obra mais importante, que foi a luta árdua pela construção do Estádio do Maracanã, que teve seu início em 1947 depois que o Brasil foi designado como o país-sede da Copa do Mundo de 1950. Houve a  ajuda de grandes personagens: jornalistas como Ary Barroso (para quem não sabe Ary Barroso foi um dos maiores compositores brasileiros de todos tempos, além de ser um radialista, criador de um estilo todo próprio de narrar uma partida) e de outros que defendiam a tese de um estádio para no mínimo 150 mil pessoas, onde ficava o terreno pertencente ao Jóquei Clube na época.

O afetuoso abraço do neto no avô: Mario Neto foi testemunha ocular da luta do jornalista pelo futebol brasileiro / ACERVO PESSOAL

Outros também muito importantes no cenário político da época defendiam a tese de aumentar o Estádio de São Januário, passá-lo de 20 mil para 75 mil torcedores, o que já estaria de muito bom tamanho. E não parava por aí. O então vereador Carlos Lacerda liderava um grupo que queria a construção de um novo Estádio com capacidade para 80 mil torcedores em Jacarepaguá, segundo ele o centro do Rio no mapa. Discussões diárias, ligações, telefonemas intermináveis, artigos fortes do meu avô defendendo suas ideias, para que se resolvesse este impasse, que durou mais ou menos cinco meses até o governo brasileiro decidir a favor do grupo que defendeu a proposta do estádio gigantesco, com uma arquitetura maravilhosa, com uma marquise sem nenhuma coluna, considerado por muitos uma das maiores construções do século 20.

O maior defensor do Maracanã

Daí em diante todo mundo sabe o final desta história. O que muita gente não sabe é que, mesmo depois do final da obra, alguns diziam que a marquise cairia, que não se sustentaria com o tempo. Meu avô levou todos funcionários do “Jornal dos Sports” para subir na marquise e no dia seguinte a manchete do Jornal foi: “A marquise não caiu”. Todos os jogos do Brasil nesta Copa do Mundo tiveram público acima de 130 mil pessoas, sendo que na final garantem que havia mais de 200 mil. Foi a maior vitória de um gênio que veio de Recife em 1916 (nasceu em 1908) com uma mão na frente e outra atrás, tornando-se ao longo dos anos o maior jornalista esportivo brasileiro do século. Foi o primeiro a dar espaço na primeira página a uma partida de futebol, em 1928, contra a vontade do seu pai, o dono do jornal “A Crítica”, Mario Rodrigues, diga-se de passagem.

Mario Filho transformou a ideia que se tinha na época do jogador de futebol considerado um marginal, dando-lhe voz, respeito. Responsável direto pela criação da parte esportiva do “Globo”, criou a coluna Primeira Fila, no jornal do seu amigo Roberto Marinho. Depois fundou o primeiro jornal inteiramente dedicado ao futebol, o Mundo Esportivo. Neste mesmo jornal criou o primeiro desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro (não oficial) em 1932. Criou os jogos da Primavera, só para mulheres, depois os Jogos Infantis, em minha homenagem, o Torneio de Peladas, sucesso na Europa toda, a mística Fla x Flu, concurso entre as torcidas… Torcedor enrustido do Flamengo, tinha um carinho danado pelo Fluminense. Autor de vários livros geniais: o “Negro No Futebol Brasileiro”, por exemplo, foi considerado pelo grande sociólogo Gilberto Freire um dos três maiores trabalhos nesta área no século passado.

Vou parar por aqui, porque a emoção começou a tomar conta.  Uma família de gênios, Mario Filho, Roberto Rodrigues, Nelson Rodrigues, enfim todos os homens desta família. Na minha mente o meu avô foi o maior. Como disse Nelson Rodrigues numa das suas crônicas inesquecíveis: “Mario Filho foi tão grande que deveria ser enterrado no grande círculo do campo, no Maracanã”.

Mário Neto
Jornalista, foi colunista do "Jornal dos Sports". É neto de Mário Filho.

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