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Raízes: o reinício e o fim de um templo do povo

A reinauguração do Maracanã expôs um estádio dissociado de suas raízes populares

É evidente que para que o ato de mijar no Maracanã deixasse de ser uma missão ninja não havia a menor necessidade de destruir tudo em volta e transformar em entulho mais de 60 anos de história viva.

Cada um sabe onde estão as suas raízes. Sempre achei bonito, e até invejava um pouco, quem nasceu, cresceu e viveu sempre na mesma casa, no mesmo bairro, na mesma cidade ou país. Essa estabilidade da longa permanência em um mesmo lugar só desfrutei na infância. Da adolescência em diante foram muitas casas em muitos bairros, algumas cidades e países diferentes. Durante muito tempo pensei que as minhas raízes estavam espalhadas por esses lugares onde dormi e frequentei a padaria. E até me orgulhava do que pensava que fazia de mim um cidadão do mundo. Não poderia estar mais enganado.

As minhas raízes, na verdade, sempre estiveram num lugar só. Onde, ironicamente, jamais dormi ou comprei pão. Mas que frequentei com notável assiduidade durante toda a vida e do qual, quando distante, sinto mais saudade do que de qualquer outro lugar no mundo. Minhas raízes estão ali, misturadas com outras tantas que são incontáveis, naquela intersecção entre a Tijuca, Vila Isabel, a linha do trem da Central do Brasil e a Mangueira. Ali onde se ergueu, há muito tempo, o gigante Maracanã.

Só fui capaz de perceber que era ali, na Rua Eurico Rabelo, sem número, que jaziam os meus fundamentos quando já era tarde demais. Essa descoberta se deu em 2013, num Brasil x Inglaterra a leite de pato que marcou a reinauguração do estádio. E também o meu reencontro com ele após mais de três anos de ausência. Involuntária, forçada pelas obras que adequaram o antigo Maior do Mundo aos protocolos impostos pela FIFA para que o estádio criado para a Copa de 1950 pudesse abrigar a final da Copa de 2014.

Em poucos minutos, a decepção

Cheguei animado ao novo Maracanã, com o coração leve, disposto até a torcer pela antipática Seleção Brasileira. Ainda do lado de fora, antes de cruzar os portões, o impacto do deslumbramento inicial pelo aço e pelo vidro que se integraram à silhueta do colosso de concreto foi, à medida em que entrava no estádio, virando um estranhamento de estar, e ao mesmo tempo não estar, em um lugar conhecido a vida inteira, mas que já não era mais o mesmo. Precisei dar poucos passos pelos seus luminosos e ladrilhados corredores para entender que do velho Maracanã, agora o ossário das minhas raízes, só sobrara a casca.

O campo, as arquibancadas, os túneis, o fosso, tudo que conferia grandeza, mistério e monumentalidade ao Maraca da vida inteira tinha sumido, acabado. No interior do anel, dentro da panela de pressão, tinham colocado a mais impessoal e insossa das arenas pré fabricadas que nos acostumamos a ver pela TV nos jogos em outros países. Toda a dramaticidade daquele ambiente concebido no século anterior para provocar assombro e temor se diluiu. Ao sentar na minha cadeira numerada, até a qual fui conduzido por um steward, uma derradeira punhalada.

Um Maracanã gourmetizado e que nada lembra a antiga alcunha de “Maior do Mundo”

A marquise não existia mais. No lugar da elíptica marquise, com seu fantástico balanço e sua curva sinuosa que provia sombra e amplificava o troar das torcidas, colocaram um arremedo de tela plástica, um ombrelone bastardo de gosto duvidoso. Uma cobertura vulgar de jardim de casa de festas, sem qualquer personalidade e nenhuma sonoridade própria.

Os times do Brasil e da Inglaterra ainda estavam entrando em campo quando me convenci de que o Maracanã, onde minhas raízes estavam ainda fincadas, estava morto, acabado, destruído. E para sempre. A sensação era de quem saiu de casa para encontrar um velho parente e encontrou o corpo do tio despedaçado, exangue, desmembrado em cima de uma mesa de MDF das mais vagabundas. Foi como entrar sem saber na cena do crime de um dos assassinatos mais brutais que se tem notícia. Não foi uma sensação legal.

Ainda tentei me animar com o jogo em si, mas o time de Felipão não ajudava. Me levantei antes do intervalo para conhecer in loco a única verdadeira melhoria originada do estupro promovido pela ganância e pela ignorância: os banheiros. Que, de fato, foram melhorados. Mas é evidente que para que o ato de mijar no Maracanã deixasse de ser uma missão ninja não havia a menor necessidade de destruir tudo em volta e transformar em entulho mais de 60 anos de história viva.

No campo, mais frustração

Voltei do banheiro ainda mais puto do que já estava. O primeiro tempo, sem gols e de de baixíssimo orçamento técnico não ajudavam a tarde a passar mais rápido. No segundo tempo, sei lá como, o Brasil ainda fez um gol com Fred pegando um rebote de um chute bonito de Hernanes que bateu na junção do poste com o travessão. A Inglaterra empatou com um golaço de Chamberlain acertando de primeira um chute de fora da área que Julio Cesar, todo de preto, não conseguiu segurar. Aos 33 do segundo tempo, Rooney avançou sem marcação, viu Julio Cesar fora do gol e largou o sapato. A bola resvalou nas costas de alguém e entrou bonita no ângulo do gol que o Flamengo gosta de atacar no segundo tempo, 2 a 1 Inglaterra.

Mesmo fantasiado com a camisa azul da final de 58 não me segurei, levantei e comemorei o gol alienígena. Alguém dos degraus de cima gritou um “Senta, palhaço!” e comecei a descer pra ir embora. Minha alegria durou pouco, ainda não tinha chegado no túnel de saída quando Paulinho, lá no gol do Maracanãzinho, acertou um chutão e igualou tudo.

Resultado merda, de um jogo merda, de uma seleção merda, num estádio merda. Mas que eu continuo a frequentar. Xingando, reclamando, me indignando e maldizendo o crime que os mãos-grandes, aliados aos vista-curta, fizeram. Hoje olho pras fotos do antigo Maracanã com a mesma ternura e o balançar de cabeça de quando vejo uma foto da Marilyn, da Sharon Tate ou da Leila Diniz. Eram tão bonitas. Por que, por quê?

Continuo a visitar os restos do Maracanã porque não tenho alternativa. É lá que estão as minhas raízes.

Arthur Muhlenberg
Publicitário, escritor e, segundo o próprio, Mulambo bem vestido

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