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A Joia, a Trave e a Medalha Ouro. Maracanei!

Três bolas na trave é algo raro e notável mesmo para um jogo inteiro. Apenas no primeiro tempo então, e salvando o mesmo time? Eu só pude pensar em uma coisa: o Maracanã, ele mesmo,  jogou junto – e muito – naquela tarde de sábado.  

Aos 39 anos de idade, ainda carregava um enorme peso sobre minhas costas sofridas de amante do futebol (e corinthiano, mas isso não é assunto hoje). Era agosto de 2016, e eu jamais havia “maracanado” – um verbo que eu mesmo inventei, que significar estar dentro do Maracanã e ver um jogo de futebol. 

Não, eu sequer tinha visto o “Colosso do Derby” com meus próprios olhos. Tive chances. Colecionei desculpas. 

Visitei o Rio muitas vezes antes, a trabalho ou a lazer. Numa dessas até estive no Engenhão, um Flamengo 1 x 3 Palmeiras pelo Brasileiro de 2010. Apenas para conhecer o estádio.  

E por que raios então eu nunca fizera a devida força para conhecer o Maracanã? As desculpas que poderia escrever não convencem nem a mim mesmo hoje em dia. Todos os meus amigos que gostavam minimamente de futebol já tinham visto alguma partida lá.   

Meu sonho mesmo era ter visto um jogo na antiga geral, mas em 2016, ela já não existia há uma década. Eu também não conseguiria mais ver o Colosso de Rodes e outras cinco maravilhas, então, só restava seguir o jogo. 

E com a bola da vida rolando, surgiu uma nova chance veio. De arquibancada, pra sentir mais emoção. 

O jogo era excelente. A final masculina do futebol olímpico. Ingresso caro? Não quis saber. Não quis mais dar desculpas. Peguei com meu amigo (grato, Armando) e paguei. Não ia perder. 

Eu já estaria no Rio para os jogos de qualquer forma. No cardápio, o que eu tinha conseguido era luta greco-romana, pólo aquático e atletismo. Ia carimbar minha presença em uma Olimpíada. Ver futebol seria mais do que cumprir tabela. Seria torcer de verdade. 

Era o dia de maracanar.

Barra, Madureira, Maracanã

Hospedado na casa de um amigo na Barra, bem em frente ao parque olímpico, dei início a minha jornada de BRT. Eu poderia ter ido de Uber? Sim, mas paulistano forjado no transporte público desde os tempos da velha CMTC, me aventurar rumo ao desconhecido dentro do “busão” é um hábito de aventura. 

Desci no Terminal Paulo da Portela, em Madureira, Nunca havia estado tão dentro do subúrbio carioca. Aparentemente não era o caminho dos torcedores olímpicos. Só via eu com a amarelinha. Um pouco de medo? Sim, claro, mas o trem estava ali.  Bastava atravessar a passarela em meios aos inúmeros camelôs. Nada muito diferente, naquele momento, de alguns terminais mais periféricos de São Paulo. Para quem cresceu em Diadema nos anos 90, nada parecia tão anormal. E para acabar com falsas expectativas, nada aconteceu mesmo. 

Dez estações depois, eu avistava, finalmente, e pela primeira vez, o Maracanã.    

Eu em minha primeira vez no Maracanã: inesquecível

Turista

Cumpri rituais que criei na hora. Desci as rampas do metrô e corri procurar a estátua do Bellini. Para os mais acostumados, aquilo é paisagem. Pra mim, era melhor que o Colosso de Rodes. Uma Torre Eiffel com a Jules Rimet na ponta. 

Senti o clima, que era agradável, mas Olímpico. E me desculpem-me amantes dos esportes olímpicos, não tem como outra modalidade igualar um clima pré-jogo de uma partida de futebol. Muito menos entre clubes. Imaginei como deveria ser em dia de Clássico. Minha referência era o Morumbi nos anos 90. O que teria em comum? E o que seria único. Essa novidade ia ficar para outro dia. Aquele era um jogo da Seleção.

Entrei. Era hora de ver por dentro

 

O Maracanã é deslumbrante à primeira vista. Com uma cerveja na mão (prazer que a Copa e a Olimpíada devolveram ao torcedor do futebol), fiquei admirando por muito tempo antes de puxar assunto com meus vizinhos. À esquerda, um paulista, de Santo André. Atrás, outro, campineiro torcedor do Guarani. À minha direita um legítimo carioca. Da Zona Sul. Contei a ele meu trajeto Barra-Madureira-Maracanã. A resposta dele, no sotaque inconfundível, foi: “Caraca. Tu veio pela cidade sinistra!”. 

A Jóia e a Trave

Sim! Teve jogo. E foi muito bom. A seleção olímpica montada pelo técnico Rogério Micale tinha ótimos nomes: Weverton; Zeca, Marquinhos, Rodrigo Caio e Douglas Santos; Walace e Renato Augusto; Gabigol, Luan e Neymar; Gabriel Jesus. O adversário? A Alemanha…aquela do 7 x 1. Quer dizer, não exatamente aquela do 7 x 1, mas com a cicatriz ainda sangrando, quem é que fica tranquilo. 

Da escalação alemã e seu excesso de consoantes, destaco Meyer, meia que, ao meu ver, foi o melhor em campo – ao lado do travessão. 

Dez minutos de jogo. Alemanha melhor, domínio de bola e territorial, mas ainda não havia levado perigo. É nesse momento que Brandt (seis letras e uma vogal) arriscou um clássico chute cruzado colocado. A bola viajou da esquerda para a direita, passou por cima de Weverton e explodiu no travessão. 

O susto acordou o Brasil (adoro os chavões do futebol, porque eles funcionam) Foram três chances reais de gol até a chegar a vez de Neymar. Longe de ter feito uma jornada brilhante, o fato é que quando o Brasil precisou da sua maior jóia, ele resolveu. Um golaço de falta, aos 26, no ângulo, acordando a coruja.

Mas o papel de herói do primeiro tempo era do travessão. Aos 30, numa cobrança de falta de Meyer, sem ângulo, pela esquerda, a bola quicou, encobriu Weverton e tocou a trave antes de sair por cima. Quatro minutos depois, nova falta, dessa vez pela direita. Meyer, de novo, cruzou e Bender cabeceou firme. A bola mais uma vez encontrou o travessão antes de sair por cima. Na arquibancada, legiões de torcedores com o coração na boca e “aquilo” na mão. 

Era susto demais para um primeiro tempo. Três bolas na trave é algo raro e notável mesmo para um jogo inteiro. Apenas no primeiro tempo então, e salvando o mesmo time, eu só pude pensar em uma coisa: o Maracanã, ele mesmo,  jogou junto – e muito – naquela tarde de sábado.

Adrenalina e ouro

O segundo tempo começou mostrando que torcedor não pode ter paz. Oito minutos, Meyer recebe da direita, perto da marca do pênalti, e toca cruzado rasteiro, bem longe do alcance de Weverton e, principalmente, do travessão. Empate alemão. 

O peso e a maldição do ouro estaria fazendo efeito sobre as costas brasileiras? Passei quase todo resto do jogo pensando na União Soviética de 1988. Nos dolorosos gols Kanu para a Nigéria, em 1996, e Mbami para Camarões, em 2000. O vareio por 3 x 0 que levamos da Argentina na semifinal de 2008, com dois de Aguero e um de Riquelme. E o show de Peralta na final de 2012 para o México, que escolheu uma final olímpica contra a gente para jogar como nunca, e vencer, como nunca antes.

Adrenalina em níveis alarmantes. A prata, que para muitos esportes é a conquista de uma vida, para o futebol sabemos que nada mais é do que mais um fracasso contabilizado. Ônus de ser o esporte favorito. 

O Brasil tentou. Gabriel Jesus, Luan, Neymar e Renato Augusto tiveram chances. Nada de gols. E, pra reforçar, houve tempo para a Alemanha dar um susto. Alívio, punido com mais 30 minutos de prorrogação, e nada de gols. 

Não teve jeito. A disputa foi para os pênaltis.

O título que faltava

Folha de S.Paulo – 21.ago.2016

A Organização Mundial da Saúde – ou a Convenção de Genebra – deveria proibir a disputa de pênaltis, especialmente quando nosso time participa dela. É muito divertida quando estamos vendo o time dos outros. Mas eleva os batimentos cardíacos e níveis de pressão arterial a patamares insustentáveis.

Um de cada vez, como tem que ser. A Alemanha bateu primeiro e fez. Renato Augusto empatou. A Alemanha bateu o segundo e Weverton tocou nela, mas a bola passou por baixo. Marquinhos empatou. A Alemanha fez o terceiro. Rafinha empatou. A Alemanha acertou o quarto. Luan empatou…

No quinto foi a vez de Weverton. Caiu para a esquerda, duas mãos espalmadas, não deu chance para o azar. E era, de novo, a vez de Neymar.

Correu, parou e bateu. Deslocou o goleiro. Pôs no alto, lado esquerdo. A trave, aquela mesma do primeiro tempo, engoliu a bola, que estufou a rede e desceu por ela, como deve ser no Maracanã.

O ouro era, finalmente, nosso.

Fernando Badô

1 comentário

  • Adorei a história, e principalmente a escrita. Está difícil encontrar textos tão bem escritos no meio de tanta coisa feita sem o devido carinho com o nosso idioma. Que delicioso foi ler a narrativa. Parabéns Badô!

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