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O primeiro clube a ser campeão no gramado do Maracanã

O Bangu escreveu seu nome na história do Maracanã ao se tornar o primeiro clube a levantar uma taça no estádio

Quando o dirigente Ferreira Vianna entregou a taça de campeão ao meia Guálter, o Bangu sabia que tinha entrado para a história: era o primeiro time a levantar um troféu no recém-inaugurado Maracanã.

Engana-se quem pensava que o entusiasmo do carioca com o futebol tivesse ido por água abaixo após a derrota na final de 1950 para o Uruguai.

Apenas duas semanas após aquele trágico dia 16 de julho, quando a seleção brasileira deixou escapar o título mundial em pleno Maracanã, mais de 46 mil pessoas voltaram ao “Estádio Municipal” – como era chamado na época – para prestigiar o Torneio Início, uma tradição no futebol carioca.

Ao todo, 12 times disputariam, desde o meio-dia, partidas curtas de 20 minutos, para saber qual equipe estaria melhor preparada nesse início de temporada. Em caso de empate, decisão por pênaltis. A final, uma exceção à regra dos 20 minutos, durava 40 minutos e se houvesse necessidade, ocorreria uma prorrogação. Ou seja, quando o campeão fosse conhecido, a noite já estaria caindo sob o Rio de Janeiro.

Constituiu um verdadeiro sucesso a disputa do Torneio Initium, realizado no Estádio Municipal. Sem desmerecer todos quantos têm sido realizados até agora, não se pode negar que o grande certame de anteontem, destacou-se pelo brilho de sua disputa e pelo entusiasmo que despertou, proporcionando um verdadeiro recorde de assistência e consequentemente, de arrecadação”, destacou o Jornal do Brasil.

Havia uma explicação para tanto entusiasmo. O campeão do Torneio Início de 1950 ficaria eternamente conhecido como o primeiro clube a erguer uma taça no Maracanã.

Uma jornada que começou sob o sol do meio-dia

O Bangu teve que chegar cedo. Iria fazer a primeira partida, logo ao meio-dia, contra o Canto do Rio. Depois dos 20 minutos regulamentares, empate em 0 a 0. Os pênaltis decidiram a sorte a favor dos “Milionários” de Moça Bonita: 2 a 1.

A disputa de pênaltis, na época, também era um pouco diferente. Cada time tinha direito a três cobranças, batidas todas de uma vez, pelo mesmo jogador. Assim, Edésio fez apenas um para o time de Niterói, enquanto o zagueiro Sula, comodamente, converteu dois para o Bangu.

Nas quartas-de-final, o time treinado por Aymoré Moreira teve um jogo duríssimo contra o Botafogo. Zizinho, cobrando falta, fez o seu primeiro gol com a camisa do Bangu. Nos 10 minutos derradeiros, Braguinha empatou e a decisão também foi para os pênaltis.

Sula, competentíssimo, acertou as três cobranças. Braguinha fez só duas. O Bangu estava classificado para as semifinais.

No duelo mais fácil, Ismael logo fez 1 a 0 para os banguenses sobre o Olaria e o time garantiu a vantagem mínima até o final dos 20 minutos.

A decisão contra o Vasco – que eliminara o Madureira e o Flamengo – foi uma partida épica. Os 46 mil presentes ao Maracanã dificilmente esqueceram aqueles 60 minutos de futebol.

Logo aos 3 minutos de jogo, Ismael recebeu bom passe de Zizinho na entrada da grande área. Estava de costas para a meta, mas conseguiu virar e chutar, indo a bola no canto, à meia altura: Bangu 1 a 0.

Não houve tempo para comemorações. Aos 5 minutos, em um cruzamento rasteiro para a área, o zagueiro Sula – herói dos pênaltis – acabou pondo a bola contra suas próprias redes. Era o empate do Vasco.

O gol contra abateu o Bangu. Aos 8 minutos, em novo ataque vascaíno, outro gol. Ferrinho chutou forte e Luiz Borracha não teve como defender. Era a virada.

O torcedor nas arquibancadas começou a se acostumar com a ideia de que a cada ataque saía um gol. Por isso, não foi surpresa que, aos 11 minutos, Zizinho fizesse um belo gol de cabeça, encobrindo o goleiro Ernani: 2 a 2.

Depois disso, nos 29 minutos que faltavam até o final do jogo, os goleiros se redimiram. No início do 2º tempo, o árbitro expulsou o vascaíno Alfredo por reclamação e o Bangu dominou absoluto.

Foi inacreditável o azar que passou a perseguir os alvirrubros. Moacir Bueno chutou e a trave salvou o Vasco. Depois foi Zizinho, que também teve a chance de marcar, mas a bola acertou a trave. Por fim, Menezes que tirou do goleiro, mas viu a trave impedir o terceiro gol, que seria o do título.

Após 40 minutos de um futebol eletrizante, a final foi para a prorrogação de dois tempos de 10 minutos. Mudar de lado no gigantesco gramado do Maracanã fez o time exorcizar o fantasma das bolas na trave. Logo aos 4 minutos, Menezes recebeu um passe de Zizinho (foto) e chutou com raiva. Foi o suficiente para vencer a resistência do goleiro Ernani. O Bangu vencia por 3 a 2, e passou o tempo restante pressionando em busca do quarto tento, que não veio.

Quando o dirigente Ferreira Vianna entregou a taça de campeão ao meia Guálter, o Bangu sabia que tinha entrado para a história: era o primeiro time a levantar um troféu no recém-inaugurado Maracanã.

Os craques banguenses receberam da diretoria um prêmio de 3 mil cruzeiros. E adivinhem, quem foi eleito pela imprensa, o craque do Torneio?

Indubitavelmente, Zizinho merece as honras de crack do Torneio. Em verdade, o novo atacante banguense chegou a se constituir no grande segredo da brilhante campanha cumprida pelo seu clube. Foi um verdadeiro espetáculo, a figura impressionante do seu quadro, o verdadeiro condutor da vitória”, sintetizou a revista Sport Ilustrado.

A imprensa, perspicaz, não deixou de notar o fato de que o técnico Flávio Costa era novamente vice-campeão, em um período inferior a quinze dias. Flávio foi também o técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo…

Mas, não houve volta olímpica, o Maracanã já estava às escuras e os refletores só seriam inaugurados no ano seguinte.

Carlos Molinari
Jornalista, repórter da TV Brasil; e também mestre em História pela UnB, além de pesquisador do Bangu.

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