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O jogo do sonhos e um final nada feliz

O “Jornal do Brasil” destacou o reconhecimento do adversário depois da conquista americana

Com um estilo agressivo, cheio de talentos, tendo em Edu e Luizinho os expoentes de um ataque abastecido por Flecha, ponta-direita de cruzamentos certeiros, o time de Danilo Alvim enchia os olhos de americanos ou não.

Nunca uma torcida sonhou tanto e apostou tanto num título. Os gozadores diziam que a torcida do América cabia numa Kombi, mas fotos comprovam que ela chegou a dividir o Maracanã com os gigantes Flamengo e Vasco. Eram reforços dos outros times que queriam ver um grande time e bom futebol? Faz sentido. O ano era 1974 e o América realmente tinha uma grande equipe.

Comandada por Danilo Alvim, o Diabo Rubro era o que muitos consideram até hoje o melhor América de todos os tempos. E fez uma Taça Guanabara exuberante. Na final do turno, venceu o Fluminense por 1 a 0, gol do saudoso Orlando Lelé cobrando falta.

A campanha do América, que desde 1960 nunca conseguiu chegar tão perto do feito do título daquele ano, provocou uma festa até então insuspeitada. O português do bar em frente ao Estádio Wolney Braune, o modesto estádio do Andaraí, onde a equipe treinava e jogava algumas de suas partidas de menor expressão, nunca vendeu tanta cerveja e cafezinho.

Com um estilo agressivo, cheio de talentos, tendo em Edu e Luizinho os expoentes de um ataque abastecido por Flecha, ponta-direita de cruzamentos certeiros, o time de Danilo Alvim enchia os olhos de americanos ou não.

A conquista da Taça GB de 1974 na narração de Waldir Amaral, pela Rádio Globo do Rio de Janeiro

Vasco e Fla põem água no chope

Veio o segundo turno. Ah, era barbada!!! Mas o Vasco de Mario Travaglini subia de produção e roubou o sonho americano de conquistar o segundo turno e, com ele, o título cobiçado. Ah, mas tem o terceiro turno. Sim, naquela época o Campeonato Carioca (ou Estadual, pra ser política e esportivamente correto) tinha três turnos e acabava em dezembro.

Os mais realistas percebiam. O América virtuoso, de Bráulio, Edu, Ivo, do esforçado Gilson Nunes, do espalhafatoso goleiro Rogério, ao mesmo tempo em que rebolava em campo, também perdia o élan, a objetividade e punha em risco a campanha.
Ao mesmo tempo, durante o terceiro turno, os ventos sopraram notícias alarmantes. Diariamente, a turma da imprensa esportiva avisava que Luizinho tinha sido cantado e topara a proposta do Flamengo. Ele próprio, com franqueza, não negou a transferência para o rubro-negro e, em 1975, lá estava ele fazendo companhia a Zico, Júnior, Zé Mário & Cia.

Coincidentemente, o Flamengo detonou os sonhos americanos de forma muito, mas muito parecida. Na decisão do terceiro turno, Júnior mandou um chute do meio da rua, Rogério ficou com as penas do frango nas mãos. A esperança e o otimismo dos americanos não morreram ali, naquela derrota de 2 a 1, diante de mais de 65 mil pessoas.

Afinal, vinha pela frente uma final de campeonato que prometia ser eletrizante. E foi. Só que o América foi eletrocutado logo no primeiro jogo. O fio desencapado de 812 mil volts chamado Flamengo ganhou de novo por 2 a 1. E, pra quem diz que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, Júnior, na época jogando na lateral direita, acertou outra botinada do meio da rua. E lá estava Rogério, considerado o melhor goleiro do Carioca daquele ano, de novo com as penas nas mãos. Meu saudoso pai, esperto, que desconfiava de tudo e de todos, furioso da vida vaticinou: “Ah, tá no bolso…”.

E, com um melancólico empate de 2 a 2 com o Vasco, o melhor América de todos os tempos se despediu com o consolo de ter tido o artilheiro do Carioca, Luizinho, com 20 gols.

Mais tarde, em 1982, na gestão do americano Giulite Coutinho na presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o América conquistou a Copa dos Campeões, que reuniu os vencedores do Campeonato Brasileiro, da Taça Brasil e dos Torneios Roberto Gomes Pedrosa e Rio-São Paulo.

Curiosamente, o América jamais conquistou nenhum desses títulos. Diante da desistência de alguns campeões legítimos, a CBF incluiu o América por ter participado com frequência desses torneios, taças e campeonatos. Coisas do nosso Brasil. Hoje, relegado a clube de empresários e de dirigentes pouco ou nada comprometidos com suas origens e glórias, o América agoniza, com um título que realmente não lhe faz justiça: o pior América de todos os tempos.

Marcio Tavares
Jornalista, trabalhou nos seguintes veículos: Revista Manchete, O Dia, Diário de Notícias, Última Hora, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil, Band, TV Manchete e O Globo

6 Comentários

  • Como sempre um belo texto de um brilhante jornalista. Com orgulho digo que sou seu amigo e admirador e, por coincidência, estivemos por perto nessa fase do Mequinha…cobri muito os treinos lá no Andaraí…

  • Acompanhei todos esses times rubros e me alegra ver suas alegrias e tristezas descritas por um jornalista como Márcio Tavares. Tipo do jornalista em que você acredita nas informações em todas as linhas. Escolha certa para lembrar os grandes da Rua Campos Sales. Mas meu registro fica para o time camp eão de 60, que contou com a torcida de um vascaíno na arquibancada do Maracanã.

  • Ótima lembrança do Mequinha, segundo time de todo carioca, inclusive meu. Mas que me deu talvez a maior tristeza de minha vida de torcedor, ao derrotar o Fluminense na final do Campeonato de 1960.

  • Quem viu aquela torcida americana jamais esquecerá, Márcio. Como rubro-negro, mas com o América na condição de segundo time, também me entristece a situação atual do clube da rua Campos Sales. O Rio de Janeiro deixou de ter os seis clubes da década de 1960, quando Bangu e América iniciaram a queda vertiginosa na qualidade e nas gestões. Deu nisso aí. Lamentável.

  • Meu pai, que era um dos dois únicos torcedores do América que conheci na vida (o outro é George, um grande amigo), nunca engoliu a tal Copa dos Campeões. Ele ia adorar ler esse texto.

  • Uma aula de história futebolística, escrito pelo renomado e amigo Márcio Tavares. Obrigada pelo texto e pela aula! Uma pena a situação do América – um time tão simpático e amado até pelos rivais!

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