EspeciaisMaracanã 70

O dia em que conheci Barbosa, o triste homem de borracha

Barbosa, envelhecido, não se livrou da injusta pecha a que o submeteram até o fim da vida

Sua cela de condenação era aquela escura loja de pesca. Morava sozinho ali, num puxadinho suspenso. Serviu-me um copo de pinga e esquentou uma marmita no pequeno fogareiro. Impressionou-me a agilidade com que se abaixava e levantava, movendo as pernas, sem apoiar as mãos no chão. O Homem de Borracha era um homem triste.

Poucas ruas são mais cariocas e mais desprezadas pelo poder público. Longe dos cartões postais da zona sul, ela corta os bairros de Bonsucesso, Ramos e Olaria. Segue paralela aos trilhos da antiga Leopoldina Railway. É longa, feia, cinza, esburacada, poluída, mal iluminada, engarrafada, calorenta, perigosa. Eu não disse? Nada mais carioca. Gosto dela.

Lá fica a quadra do Cacique de Ramos, o famoso bloco de embalo. Mas o Cacique é mais do que um bloco. A partir da década de 1970, quando a quadra passou a abrigar o Pagode da Tamarineira às quartas-feiras, foi palco de uma revolução no samba, outro tipo de embalo: o surgimento do Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra, Sombrinha e, não por último, meu amigo Luiz Carlos da Vila.

Pois bem: voltemos à rua. Ainda não lhe dei o nome: Uranos. Antigo caminho de fazendas da região. Parte da estrada que ligava o Rio a Petrópolis. Batendo perna como repórter, certa tarde eu estava nela, não me lembro fazendo ou procurando o quê. Sei que achei uma loja de pesca. Resolvi entrar, fascinado pela sua decadência, um estabelecimento escuro, soturno, cenário suburbano de Lima Barreto. Alguns anzóis, varas, molinetes, carretilhas, carretéis de linha, iscas artificiais, repelentes etc. Fora ainda havia claridade, mas dento da loja, com suas poucas luzinhas amareladas, parecia noite.

No balcão, um mulato espigado, de cabelos brancos, a idade estampada nas rugas do rosto, nos olhos turvos pela catarata, nos dedos retorcidos:

– O senhor não é Barbosa?

Era.

Barbosa que levou o gol do Ghiggia na final da Copa de 1950, no Maracanã recém-construído. Na boca dos locutores esportivos, o “lance fatídico”, até hoje motivo de mil debates nos botequins. Não entro no mérito de ter sido ou não frango.

Das glórias do campo ao guichê do Maracanã

Nascido em 1921, na cidade de Campinas (SP), Moacir Barbosa Nascimento conquistou os títulos mais importantes, menos aquele. Foi campeão carioca (1945, 47, 49, 50, 52 e 58), do Rio São-Paulo (1958) e do Sul-Americano (1948). Um dos destaques do Expresso da Vitória, o goleiro do Vasco – que começara a carreira como ponta-esquerda – chamava a atenção pelo bom posicionamento, pelo reflexo apurado, pela segurança com que saía do gol (costumava pegar a bola, no meio dos atacantes, com uma única mão), pela coragem de saltar aos pés dos adversários e, sobretudo, pela elasticidade. Não à toa tinha o apelido de Homem de Borracha.

Nas palavras do cronista Armando Nogueira, era “a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro”. Barbosa achava que, depois do Maracanazo, fora “condenado à prisão perpétua”. Com requintes de humilhação: em 1993, na véspera de outro Brasil x Uruguai no estádio, ele foi convidado para gravar um depoimento pela BBC de Londres, que em troca lhe daria uns trocados em dólares de que estava, como sempre, necessitando. Parreira, técnico da seleção brasileira, o impediu de confraternizar com os jogadores na Granja Comary. “Imagine a onda que iriam criar se o vissem com o Taffarel”, disse Parreira.

Sua cela de condenação era aquela escura loja de pesca. Morava sozinho ali, num puxadinho suspenso. Serviu-me um copo de pinga e esquentou uma marmita no pequeno fogareiro. Impressionou-me a agilidade com que se abaixava e levantava, movendo as pernas, sem apoiar as mãos no chão. O Homem de Borracha era um homem triste.

Álvaro da Costa e Silva
Jornalista, trabalhou nos seguintes veículos: O Globo, Última Hora, Jornal do Brasil, Manchete, Ele&Ela. Atualmente é colunista da Folha de S. Paulo.

Deixe um comentário