EspeciaisMaracanã 70

No Maracanã, um título com sabor do vinho de Caxias do Sul

O Botafogo até que tentava, mas havia um muro montado: Émerson, um dos muitos ídolos do nosso clube. Ali, naquele momento, era como se ele fosse o único soldado a combater uma legião de 100 mil dispostos a destrui-lo.

Alguns estádios são históricos e sagrados para quem ama e vive o futebol. Você em especial, Maracanã. As principais competições têm em ti o palco e só contigo as emoções poderiam ser tão intensas. As histórias mais importantes passaram por você nesses 70 anos e a minha não ia ser diferente.

O ano era de 1999. Um dia de muito frio e de muito nervosismo. A jornada que ficaria definitivamente na vida de todos aqueles que presenciaram a conquista do interior gaúcho. Esporte Clube Juventude. O clube que levaria a trajetória da sua cidade Caxias do Sul para o Brasil inteiro. O clube, classificado pela CBF entre os 30 principais mais importantes do interior, pra mim e pra todos os juventudistas sempre será o primeiro. O único a quebrar o protocolo de times da capital na conquista do estadual lá em 1998 e ainda por cima invicto. O único a protagonizar algo como o que os uruguaios – tão parecidos com a minha gauchada – fizeram em 1950: calar o lotado gigante de concreto.

Era um Maracanã alvinegro, com mais de 100 mil faces e feições convictas de um triunfo do Botafogo. Mas o Juventude não ganhou à toa ali a alcunha de “O Terror dos Gigantes”. Um a um, derrubou Bahia, Fluminense, Corinthians e Internacional. O destino do clube carioca estava selado e o gramado sagrado do Maraca viraria o cenário de uma improvisada Festa da Uva.

Enquanto o calor da decisão tomava conta do Rio de Janeiro, aqui o povo batia queixo com aquele frio que só quem é caxiense sabe como é. Era 27 de junho de 1999. Meus pais sequer pensavam em me colocar no mundo, mas tenho convicção de que eu já estava ali. O espírito estava, por isso, faço agora um exercício para voltar no tempo e simular uma presença física. Sei que o relógio parecia não funcionar e as horas pareciam não passar. Até que, 16 horas, a bola rolou. Na ida, deu 2 a 1 pro Juventude. Era só não tomar gol pra agarrar a taça.

O tempo passava e o 0 a 0 ainda estava no placar. O jogo estava quente fazendo esquecer o frio que fazia na Serra para aqueles que acompanhavam reunidos com a família e amigos ouvindo o rádio. O Botafogo até que tentava, mas havia um muro montado: Émerson, um dos muitos ídolos do nosso clube. Ali, naquele momento, era como se ele fosse o único soldado a combater uma legião de 100 mil dispostos a destrui-lo.

Diante do placar sem gols, o Juventude comemora o primeiro título conquistado por um clube do interior no Maracanã

Alguns centímetros separavam o ponteiro do relógio do estridente grito de gol. O ato final: Vagner, goleiro do Botafogo, partiu em desespero rumo a área adversária atrás do milagre. Improvável. Impossível. O apito trilou. A nossa cidade nas horas seguintes virou o centro do Brasil. Por que não dizer, o próprio Brasil. E nossa capital era o Maracanã.

Os mil quilômetros de diferença pareciam não existir. Nossos gritos, em Caxias, ecoavam no Rio, no Brasil, no planeta… Uma catarse verde e branca tomou conta das ruas da nossa pequenda. Numa mão a cuia do chimarrão, na outra a nossa bandeira. Eram naquele momento os maiores símbolos de identidade de uma gente que um dia bateu no peito e disse, com legitimidade, “O Maraca é nosso”.

Rayssa Brito
Jornalista, é repórter da Rádio Caxias do Sul

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