EspeciaisMaracanã 70

No Maracanã, o primeiro herói improvável colorado

Apesar de o Inter estar invicto na competição e ter protagonizado duas vitórias maravilhosas, ambas por 3 a 2, contra o Cruzeiro no Mineirão e o Palmeiras no Morumbi, eu estava, digamos, pouco esperançoso. Como suportar a pressão do Vasco sem o controle de Falcão no meio-campo colorado ou a eficiência de Valdomiro nos contra-ataques?

Vinte de dezembro de 1979. Foi a noite do primeiro herói improvável que eu conheci com a camisa do Inter: Chico Spina. Era o típico ponta-direita da época, veloz e… veloz. Aos 24 anos, porto-alegrense, colorado, Spina tinha uma carreira discreta e era reserva da lenda local, Valdomiro. Imagine você ser jogador do seu time do coração e reserva do seu ídolo. O que querer mais?

Era com esta baixa expectativa que eu, aos 15 anos, acompanhava as poucas vezes em que Chico Spina entrava em campo, sempre no segundo tempo, durante aquele Campeonato Brasileiro . Foi o primeiro campeonato que acompanhei religiosamente todas as partidas no Beira-Rio, sempre com a mesma camisa do River, branca com uma listra diagonal vermelha (sim, vermelha, não preta), rara naqueles dias, e seguramente uma das responsáveis pela ótima campanha colorada.

Somavam-se à camisa da sorte, a grande fase do goleiro paraguaio Benítez, a perfeita combinação na zaga com o sóbrio Mauro Pastor e o hábil Mauro Galvão, a combatividade de Batista, a magia de Mário Sérgio, as finalizações de Valdomiro e a maestria de Falcão. Pois justamente naquela noite de 20 de dezembro de 1979, na primeira partida das finais do Brasileirão, o Inter enfrentaria o Vasco de Roberto Dinamite, no Maracanã, sem Falcão e Valdomiro.

Apesar do Inter estar invicto na competição e ter protagonizado duas vitórias maravilhosas, ambas por 3 a 2, contra o Cruzeiro no Mineirão e o Palmeiras no Morumbi, eu estava, digamos, pouco esperançoso. Afinal, Valdomiro tinha sido o herói da vitória no Mineirão e Falcão foi espetacular no Morumbi. Eu temia como suportar a pressão do Vasco sem o controle de Falcão no meio-campo colorado ou a eficiência de Valdô nos contra-ataques?

Chico Spina, Canal 100 e Luciano do Valle

Quando a transmissão da tevê começou, veio a primeira boa notícia: chovia pesado no Rio de Janeiro. O Inter era habilidoso, mas não tinha abandonado o DNA gaúcho. E aquela noite era para sair com o uniforme sujo. Dito e feito. Muita pressão do Vasco e o Inter fechadinho. Dinamite era anulado por Pastor e Galvão. Ainda no primeiro tempo, aos 28 minutos, o imponderável apareceu pela primeira vez: Mário Sérgio passa para Valdir Lima (que substituía Falcão) e ele acha Chico Spina na meia-lua. Spina corta, tocando no meio das canetas do lateral-esquerdo Paulo César, e bate firme no ângulo de Leão. Golaço!

Naquela época, eu ia ao cinema mais interessado em assistir ao Canal 100, sempre antes de começar o filme. Fiquei imaginando aquele gol em preto e branco, câmera lenta e naquele ângulo baixo. Que coisa linda! O Maracanã era ainda mais mítico visto pelo Canal 100.

Aliviado pela vantagem, fomos para o intervalo. Veio o segundo tempo e o cenário não se alterou. O Vasco, que era um time que gostava da velocidade com os pontas Catinha e Wilsinho, não tinha espaço, nem condições no gramado para fazer o que gostava e lhe restava insistir na bolas altas para Dinamite. O milagre do Maracanã se completou logo aos 10 minutos do segundo tempo, quando Chico Spina recupera a bola na intermediária de defesa, dispara, toca para Bira, recebe na frente, ganha na velocidade do zagueiro Gaúcho e chuta rasteiro no contrapé de Leão. Pronto, 2 a 0.

Spina ainda ensaiou uma sambadinha de gaúcho no escanteio que mais parecia um sapateado. Nada mais restava ao Vasco do que a agonia de jogar 30 minutos com os nervos a flor da pele e sem capacidade criativa para superar a defesa colorada. Que noite! Demorei para dormir e só lembrava dos dois gols narrados por Luciano do Valle.

Para a história, o tricampeonato invicto do Inter seria conquistado no dia 23 de dezembro (sim, no futebol raiz se jogava outra final três dias depois), no Beira-Rio, com a vitória tranquila de 2 a 1 sobre o Vasco. Mas, de fato, o título foi ganho por Spina no Maracanã. Algumas décadas depois, outro herói improvável, Adriano Gabiru, daria o título mundial de 2006 para o Inter. Houve outras vitórias lindas do Inter no Maracanã, como os 2 a 0 sobre a Máquina Tricolor na semifinal de 1975. Mas essa não lembro tão bem, nem sei se assisti ao vivo. Já o dia de glória de Chico Spina está gravado em minha memória.  

Álvaro Almeida
Jornalista, foi redator-chefe da Revista Placar

Deixe um comentário