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Mundo melhor: o Botafogo é campeão de novo

O “Jornal do Brasil” deu em manchete o fim da agonia do Botafogo após 21 anos

Ao chegar em casa, fui até o quarto do meu então único filho, alvinegro, claro. Ele, com dois anos, dormia. Beijei seu rosto com a alegria de um campeão

Tínhamos Mauro Galvão, Gottardo, Josimar e Maurício, todos grandes jogadores. Exibíamos também heróis improváveis, como Mazolinha e Paulinho Criciúma. Mas o adversário – eles – vinha com Zico, Bebeto, Zinho, Jorginho, Leonardo, todos craques.

Mas nós, principalmente, tínhamos a História e Certeza – assim, maiúsculas – nas mãos. Sairíamos, enfim, da Grande Seca, da nossa jornada bíblica pelo deserto que se criou no espaço entre as ruínas da sede destruída de General Severiano e as arquibancadas de madeira de Marechal Hermes. Naquele dia 21, seríamos campeões, não completaríamos 21 anos sem título – e ponto.

Se eu estava lá naquele 21 de junho de 1989? Claro. Tinha comprado ingresso para arquibancada, mas o Chico Santos – que iria comigo ao jogo – ficou preso na redação carioca da “Folha de S.Paulo” (armou um escarcéu, chegou a acusar o então diretor, Tales Faria, torcedor do adversário – de retardar sua saída de propósito). Pra não ficar sozinho, saquei minha credencial e fui pra tribuna da imprensa, onde fiquei ao lado do alvinegro Xico Teixeira e algumas cadeiras acima do Arthur Dapieve.

O susto e o gol da salvação

Por estar ali, numa área de trabalho, tentei manter um comportamento discreto, segurei gritos, os uuuuuussss, engoli um ou outro palavrão. Encolhi-me para além do limite permitido pela física e pela anatomia quando o Zico foi bater aquela falta, bem dali, daquele lugar em que ele cansou de lançar a bola para o fundo das redes (a grama, naquele ponto do Maracanã, sorria pra ele, dava boa-tarde/boa-noite, perguntava pelas crianças). Ele bateu pra fora. Ufa.

Na sequência, a bola foi para a lateral esquerda. Saiu do campo, voltou. Botafogo ainda no ataque, Mazolinha corre pela ponta, cruza para Maurício que, apesar da falta cometida por Leonardo – com o corpo, o defensor investiu contra as mãos do nosso camisa 7 (você não vai querer objetividade jornalística aqui, né?) -, soube se equilibrar e, enfim, fazer o mais lindo gol da história do futebol, pelo menos, do meu futebol. Do futebol que conheci menino, menino que já se sabia Botafogo, que nasceu com a consciência de que nenhum jogo, nenhuma final de Copa, de Champions League, é maior que o jogo decisivo de sua aldeia, Aldeia Maracanã.

O exato momento do apito final que deu fim às duas décadas de jejum alvinegro

Não sei o que aconteceu depois, parece que o jogo continuou, sei que demoramos a gritar É Campeão! Era preciso trocar o crer pra ver pelo ver pra crer. Faltava pouco, estava chegando a hora. O tal comportamento discreto não resistiu muito. Nos minutos finais do jogo, vi que estava de pé sobre os braços da cadeira. Ao apito final, pulei abraçado com o Xico –  o Dapieve, inglês mais que todos os ingleses, limitava-se a aplaudir o time. Sentado.

Um quase mártir

Saí do Maracanã sozinho, comprei uma faixa de campeão e tratei de ir pra casa. Não havia táxis ou ônibus. Como morava no Grajaú, fui a pé. Passei num bar  da Praça Varnhagen, bebi uns chopes,e segui em frente, faixa de campeão orgulhosa no peito. Ao entrar na Barão de Mesquita, em frente ao Quartel da PE, olhei em frente e tremi: vi um grupo de uns 30/40 sujeitos, todos parecendo vestir roupas onde predominavam o preto e o vermelho. Sim, caraca!, eram eles – todos vindo na minha direção.

Havia uma rua à direita, achei melhor não entrar nela. A fuga poderia despertar uma reação. Fui em frente, passei no meio da turba. Primeira fila, segunda fila – e, ploft!, a minha faixa de campeão foi arrancada. Alguém gritou algo – identifiquei a palavra “porrada”. Achei que viraria um mártir do Botafogo, ao menos morreria feliz, pensei.

Foi quando um outro sujeito – um rubro-negro sensato, ele existe – gritou: “Deixa o cara!” O cara, claro, era eu. Pra minha sorte, os outros obedeceram. Eu ainda me dirigi ao Improvável Sensato e perguntei por minha faixa. Ele limitou-se a dizer que eu estava no lucro, que tratasse de sair logo dali. Achei a proposta razoável.

Ao chegar em casa, fui até o quarto do meu então único filho, alvinegro, claro. Ele, com dois anos, dormia. Beijei seu rosto com a alegria de um campeão, com a certeza de que ele não passaria pela angústia de ficar quase 21 anos sem comemorar um título. Por alguns segundos, achei que cumpria o desejo de todo pai, o de deixar um mundo melhor para seus filhos.

Fernando Molica
Jornalista, é comentarista da CNN Brasil

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