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Maracanã, de pai pra filho, no ventre de Renato

Num jogo épico, decidido nos minutos finais, o Flu arrancou a vitória e a taça das mãos do Fla

O Maracanã sempre fez parte da minha vida, me proporcionando emoções desde a infância. Filho de pais separados e passando a semana com a mãe, era pra lá que ia com meu pai nos fins de semana. E nos reencontros de sábados e domingos, torcendo pelo Fluminense, sofríamos com as derrotas e vibrávamos com as vitórias. O velho estádio foi decisivo no meu amor ao futebol.

Foi lá no Maracanã, no final dos anos 50, que admirei Castilho, e aplaudi Maurinho, Paulinho, Telê, Léo, Valdo e Escurinho. Lá também aprendi que o mundo não é cor de rosa. Para o meu desespero, tinha o Vasco de Barbosa, Paulinho e Belini; o Botafogo de Nilton Santos, Garrincha e Didi. Sem falar no ataque que dava arrepios: Joel, Moacir, Henrique Dida e Babá. Mas, entre vitórias e derrotas, aprendi: o estádio era o maior palco do mundo – a verdadeira panela de pressão.

Tempo passando, da infância para a adolescência, e sempre amando o Maracanã. Não largava o velho estádio, apesar de novos personagens.  Vi os timinhos de Zezé Moreira virarem seleções. O vigor de Denilson, a arte de Samarone e os gols de Flávio. Mais tarde, Edinho, Washington e Assis virarem heróis. E foi inevitável: esse amor, essa paixão que meu pai me despertou passei para meus filhos, Duda e Juliana. Duda aproveitou mais. Tricolor como pai e o avô. Juliana, digamos, para minha decepção, acabou rubro-negra. Influência da mãe. Pena.

Mas, a exemplo dos tricolores de sua geração, Duda demorou para comemorar um título. Custou a ver uma volta olímpica. Soltar o grito de campeão. Um sofrimento para quem ama o futebol. Nascido em 1987, tinha 8 anos em 95; não conhecia Taça.

Naquela última semana de junho de 1995, aquele martírio poderia chegar ao fim. Fla x Flu decisivo. Mas será que haveria final feliz? O Flamengo tinha Romário e Sávio. Branco já estava do outro lado. E o Fluminense, longe de ser favorito. Eu, que sempre fui otimista, temia o fracasso. Perdi noites de sono, indeciso, se levaria meu garoto ao Maracanã.  Já pensou, novo fracasso? Seria traumático.

Ir ou não ao Maracanã? Eis a questão

A indecisão virou drama. Já nem atendia aos diários telefonemas de meu filho. Sofrimento visível. Foi quando meu amigo Telmo Zanini, rubro-negro dos bons, me deu um toque final. Mais do que um toque, uma lição: “Já vi que você não vai ao jogo. Mas pense, pense muito. Se o Fluminense ganhar, e o Duda não estiver lá,  o remorso vai te acompanhar até o fim da vida”. Telmo me olhou nos olhos, me deu um abraço apertado. Com o coração mais apertado, voei pra casa do meu filho e, em menos de uma hora,  estávamos no Maracanã. Duda, quando viu a torcida gritando, me beijou. O Maracanã estava divino, colorido. Uma festa! “Pai, hoje é o nosso dia. Eu vou levantar a taça”.

A história todo mundo sabe. Pressão alta, ameaças de infarto à parte, vi meu filho sorrir e gritar campeão antes da hora, nos  dois a zero do primeiro tempo.  No segundo, vi meu filho se abater, esconder o rosto no, então, placar adverso. O futebol é incrível, nos leva ao desespero, do céu ao inferno.  Tive momentos de pânico, imaginando o que meu filho sofreria no dia seguinte no colégio. Naquela altura, o Maracanã era da nação rubro-negra. E ainda imaginava o estado de meu velho pai, desmoronando, destruindo o radinho de pilha.

Duda, Mario Jorge (à direita) e Guilherme: três gerações com algo a mais em comum – o amor pelo Fluminense

Mas nós tricolores, apóstolos do Sobrenatural de Almeida, ressurgimos. Se não sempre, quase sempre. No apagar das luzes, a ressurreição. Abençoado Aílton, abençoada barriga do Renato. Gol histórico, inesquecível. Dá pra imaginar a comemoração? Meu filho enlouquecido, me agarrando, gritando é campeão ! Lágrimas correndo e um abraço mais inesquecível do que o próprio gol. Meu filho feliz, íntimo da taça de campeão. Tudo isso no templo do futebol, o gigante de cimento armado.

Torço para que o Maracanã continue com seus dias de glória, unindo pais e filhos. Que o Duda tenha com meu neto Guilherme as mesmas emoções que eu tive com ele.

NOTA DO EDITOR-EXECUTIVO – A oportunidade de editar e publicar uma crônica do Mario Jorge é um presente que a profissão me dá. Profissional e amigo – uma dualismo nem sempre tão comum nas redações -, estendeu a mão a tantos que hoje abrilhantam essa classe de trabalhadores muitas vezes pouco valorizada mais sempre convicta a cumprir a nobre missão de informar a sociedade. Valeu, companheiro! (Fred Soares)

Mario Jorge Guimarães
Jornalista, trabalhou no Jornal dos Sports, O Globo e Globo/SporTV.

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