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A expressão plena do amor: um olhar sobre a Invasão Corinthiana

A peregrinação alvinegra em página dupla da Gazeta Esportiva
A peregrinação alvinegra em página dupla da Gazeta Esportiva

Só mesmo um roteiro de elaboração divina poderia conceber o que se deu. Nenhum homem é capaz de planejar o que ocorreu em 5 de dezembro de 1976, no Rio de Janeiro, uma confluência de acontecimentos que jamais se repetirá e nunca será esquecida.

Sempre que uma escola de samba resolve falar sobre o amor, é quase irresistível representá-lo alegoricamente por meio do Taj Mahal. O espetacular mausoléu indiano erguido no século XVII passeou pela Sapucaí, por exemplo, em 2009, quando a Portela apresentou “E, por falar em amor, onde anda você?”.

“Lágrimas nos olhos do imperador; na Índia, o palácio da saudade”, cantou a tradicional turma de Oswaldo Cruz e Madureira. Ao som da voz potente do puxador Gilsinho, brincantes sambavam em uma versão brasileiríssima do monumento – homenagem de Shah Jahan à amada Mumtaz Mahal, que morreu em 1631 dando à luz seu 14o filho.

Houve momentos bonitos no desfile, embora nenhum tenha representado tão bem o enredo quanto a troca cúmplice de olhares entre o mestre-sala e a porta-bandeira. A águia azul e branca era gigante – e é gigante –, mas mesmo aquilo que é muito grande, sempre altaneiro, às vezes fica mais evidente em um sorriso, em um gesto miúdo.

Taj Mahal e Maracanã

Taj Mahal, na Índia
Taj Mahal, na Índia, patrimônio da humanidade pela Unesco

Em outras situações, porém, só o ato grandiloquente parece fazer jus ao que fala o coração. Foi por isso que o
Taj Mahal, construído por 20 mil pessoas ao longo de duas décadas, virou uma espécie de símbolo do amor e é frequentemente apontado como sua maior prova.

A falha da Portela foi não ter percebido que havia um Taj Mahal logo ali, a coisa de três quilômetros da Sapucaí. Em sua viagem de 2009, a águia guerreira conheceu os cavaleiros da Távola Redonda, passou por Casablanca e deu um jeito de fazer um voo subterrâneo pelo fantasmagórico metrô de Nova York, mas ignorou o Maracanã.

Se na Índia real e na carnavalesca rolaram “lágrimas nos olhos do imperador”, quantas “lágrimas de esguicho”, como descrevia Nelson Rodrigues, não inundaram o estádio que ganhou o nome de seu irmão, Mario Filho?

Não é coincidência que você esteja lendo este texto em uma revista que homenageia Barbosa. Entre o pranto discreto e o convulsivo, houve muito choro no Maracanã, há 70 anos, na paixão do herói que batiza este espaço. Porém a expressão plena do amor só seria vista por ali algum tempo depois – ainda que estivesse desenhada com bastante antecedência.

“Sim, quarenta dias antes do Paraíso estava decidida a batalha entre o Fluminense e o Corinthians”, escreveu o tricolor Nelson, que, além de especialista na nudez do Éden e no pecado legado por esse jardim à humanidade, tinha vasto conhecimento sobre os grandes fatos históricos arquitetados antes de Adão ter mordido a maçã.

Só mesmo um roteiro de elaboração divina, gestado meticulosamente e traçado sob um prazo generoso, poderia conceber o que se deu. Nenhum homem é capaz de planejar o que ocorreu em 5 de dezembro de 1976, no Rio de Janeiro, uma confluência de acontecimentos que jamais se repetirá e nunca será esquecida.

O alerta ignorado de Rivellino

Você conhece o caso. O Corinthians, em um jejum de títulos de quase 22 anos, estava na semifinal do Campeonato Brasileiro. Brotou, então, o que havia sido plantado antes do Paraíso, e tomou forma a procissão que colocaria mais de 70 mil fiéis no Maracanã.

As caravanas foram se organizando e cresceram definitivamente quando o presidente do Fluminense, Francisco Horta, confirmou que a divisão dos ingressos seria igualitária. “Não faça isso, presidente, o senhor não conhece a força dessa torcida”, advertiu o meia Rivellino, que sabia bem o que estava dizendo.

Como o jogador não foi ouvido, o Rio começou a ser pintado de preto e branco já na sexta-feira, dois dias antes do jogo. A Invasão Corinthiana começou, simbolicamente, na quadra da Mangueira, do tricolor Cartola, e logo a capital fluminense tinha se tornado uma cidade sitiada. “Mãeiê!!! Caiu um corinthiano na minha sopa!”, berrou o garotinho na charge de Ziraldo, publicada no Jornal do Brasil.

“Não faça isso, presidente, o senhor não conhece a força dessa torcida”

Rivellino, meia do Fluminense, sobre a decisão de Francisco Horta de dividir os ingressos igualmente na semifinal do brasileiro.

“A coisa era terrível. Nunca uma torcida invadiu outro estado com tamanha euforia. Um turista que por aqui passasse havia de anotar em seu caderninho: ‘O Rio é uma cidade ocupada’. Os corinthianos passavam a toda hora e em toda parte. […] Eu me senti um estrangeiro na doce terra carioca”, escreveu Nelson Rodrigues, em O Globo, antes de apontar o óbvio ululante. “Dizem os idiotas da objetividade que torcida não ganha jogo. Pois ganha.”

Foi exatamente o que se viu no Mario Filho. O Fluminense, de Carlos Alberto Torres, Carlos Alberto Pintinho, Rivellino e Doval, era um time claramente superior ao Corinthians, mas a bola foi um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe naquela jornada. Uma tempestade de quinto ato de Rigoletto ajudou a equilibrar as ações, e os torcedores alvinegros fizeram o resto, buscando o empate por 1 a 1 e garantindo a vitória alvinegra nos pênaltis.

Invasão Corinthiana

“Não tinha como. A torcida abraçou, e aquilo era nosso, nada ia tirar. Mesmo no gol dos caras, a euforia da torcida deles foi dominada pela nossa vontade. Aí, quando aconteceu o gol de empate, o estádio veio abaixo, a gente tomou conta de vez. O Fluminense acabou. Não precisava nem do time lá jogando, porque a gente ia fazer tudo”, recorda o amigo Claudio Amaral do Valle, hoje com 64 anos, fiel que seguiu a equipe por todo o campeonato: “Perdi vários empregos”.

Não se trata de um exagero saudosista de um torcedor. Basta rever a transmissão da TV Tupi para observar que o retrato não é parcial. “É impressionante. Dá a impressão de que a torcida do Corinthians é maior”, observa o narrador Walter Abrahão. “Tem razão. Eles dividem a arquibancada, pau a pau, mas o Corinthians ganha nas cadeiras”, responde o comentarista Rui Porto, cuja frase é corroborada pelas imagens.

Havia 146.043 pessoas no Maracanã, número que dá conta só dos pagantes. Donde se pode tirar a conclusão de que exista uma clara subnotificação – para usar um termo tristemente moderno – na contagem de 70 mil alvinegros que ficou para a história. De qualquer maneira, a quantia exata de pessoas importa menos do que o sentimento carregado por cada uma delas.

O “Grandes Momentos do Esporte”, que celebrou em 2001 os 25 anos da Invasão, é um dos vários produtos audiovisuais ligados ao triunfo preto e branco de 1976. Estão registrados no programa da TV Cultura, dos mais felizes na reconstrução daquele momento, alguns depoimentos de torcedores com mais vontade de dizer “eu te amo” do que de gritar “é campeão”.

Explosão de emoções

Na rodovia Dutra, no ônibus, no caminho para a vitória, um gavião canta um samba de Armando da Mangueira, compositor ligado à escola de Cartola e à Gaviões da Fiel: “O preto e branco só me traz tristeza, o preto e branco me tirou a paz, mas sou Corinthians e não te esquecerei jamais”.

Já no estádio, uma torcedora explica que o Corinthians a carregou viva, sã, até ali. Era justo, portanto, que ela devolvesse o favor e carregasse o clube. “Perdi duas crianças. O amor que eu sinto pelo Corinthians me ajudou a me recuperar do trauma. Agora, tenho o Serginho, de nove meses, corinthiano também.”

Há, ainda, uma entrevista linda com o garoto Edmilson, que aparenta ter algo em torno de 14 anos e chora muito no momento do gol de Ruço. “É muita emoção. É um time que sempre, assim, causa uma explosão. Eu sinto a emoção e choro.”

Edmilson não era o único chorando. A carga emotiva era forte, e havia lágrimas inundando o Maracanã também por fora.

Outro amigo, Diógenes Cerqueira, hoje com 66 anos, dirigia uma das incontáveis Kombis que tomaram a Dutra no caminho para o Rio. Foi com toda a família viver o momento histórico, uma trupe que incluía a noiva Maria Elisabete e a mãe Deolinda.

No caos da entrada do Maracanã, com torcedores do Fluminense atirando sacos de urina na direção dos rivais, Diógenes não conseguiu achar uma posição minimamente confortável para as mulheres que o acompanhavam. Resolveu, então, abrigá-las em sua Kombi cor de abóbora e voltar ao estádio, mas nem toda a insistência com os policiais permitiu que ele entrasse novamente no Mario Filho.

Pior, a Kombi não tinha rádio. Então, como um perfeito personagem rodriguiano, Seu Dijó se sentou no meio-fio e chorou. Castigado também pela chuva, conseguiu deduzir pelo foguetório e pelos gritos como se desenrolava o jogo, porém só pôde ter uma noção um pouco mais precisa quando uma alma caridosa lhe estendeu a mão.

“Uma moça que morava em um prédio ali na frente sacou o que acontecia com a gente na Kombi, desceu e me chamou. Ela me deu um radinho para acompanhar o final da partida”, conta Seu Dijó, que ainda teve uma angústia extra: entre os gritos no estádio e a narração da Rádio Globo, levemente atrasada por questões técnicas, lutava para se antecipar à transmissão e entender o que significava cada barulho.

Muitos construíram e viveram a Invasão, mas ninguém teve uma experiência tão corinthiana. Aquela mistura de dor, alegria, sofrimento e amor é o próprio Corinthians. E não há quem saiba o que foi a Invasão tão bem quanto Seu Dijó, que deveria ter um busto no Parque São Jorge, com lágrimas de bronze.

A verdadeira obra ao amor

A esta altura, como já ficou evidente para o leitor, chega a ser constrangedora a ideia do Taj Mahal como a maior prova de amor da história da humanidade. Shah Jahan não pegou nenhuma Kombi cor de abóbora, não cruzou a Dutra balançando uma bandeira, não enfrentou um arsenal de sacos de urina e, francamente, não fez nada. Foram pessoas escravizadas, sem qualquer apreço pela homenageada, que construíram na Índia o palácio da saudade.

Naquele 5 de dezembro, por sua vez, tudo era puro, e o amor foi contemplado em suas duas grandes formas de expressão. Os corinthianos juntaram o gesto miúdo – o choro de Edmilson, Dijó e tantos outros – ao ato grandioso – a tomada de uma cidade, um movimento inverossímil de dezenas de milhares de pessoas.

Observe o olhar dos jogadores alvinegros na entrada em campo. Basílio, que libertaria aquele povo sofrido no ano seguinte, demorou a entender o que estava se passando. “Eu estava atrás na fila de atletas, e quem estava na frente ia vendo e falando: ‘Nossa, nossa’. Eu pensei: ‘Será que é briga?’. Aí, entrei e vi aquelas bandeiras… Nós nos dopamos de entusiasmo, de alegria, ao ver o sacrifício que aqueles corinthianos todos tinham feito para ir ao Rio Janeiro”, recorda o Pé de Anjo.

Tivesse a oportunidade de ver o maravilhoso mausoléu erguido em sua homenagem, Mumtaz Mahal talvez exibisse um olhar semelhante. Provavelmente, porém, a admiração, a emoção e a gratidão seriam menores, uma vez que o Taj Mahal é obra de apenas 20 mil homens.

Marcos Guedes
É jornalista da Folha de S.Paulo

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