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Lusa 100 anos: a Portuguesa na visão de um carioca da gema

Ao longo das minhas quatro décadas de vida, fatos, argumentos e pessoas me fizeram ver que no Canindé mora um gigante. Talvez adormecido. Mas que jamais morrerá graças a apaixonados torcedores.

Eu era muito menino quando ouvi pela primeira vez a história de um jogador que, de absolutamente vaiado, saiu de campo como herói no Maracanã numa partida da seleção brasileira. O personagem em questão era o ponta direita Julinho Botelho que, até 5 anos antes, envergava o uniforme da agora centenária Associação Portuguesa de Desportos.

Era muito novo. Minha cultura futebolística era mínima e, confesso, causou-me surpresa saber que o atleta de um time que considerava pequeno havia construído uma respeitável história na equipe nacional. E não era só ele: tantos outros tinham deixado imensa colaboração ao nosso futebol e eu sequer imaginava – Djalma Santos, Félix, Jair Marinho, Wladimir, Zé Maria…

Julinho Botelho
Julinho Botelho defendeu a Lusa de 1951 a 1954, com 101 gols em 191 jogos.

Minha mente mudou de sintonia totalmente quando o assunto se tornou a Lusa. Passei a prestar a digna devida reverência a um clube que teve, ao longo das décadas, a capacidade de formar a atrair tantos craques.

Os anos se passaram e constatei a força moral da Portuguesa, embora desportivamente o clube tenha se estagnado na comparação com os rivais paulistas. Vi surgir um ótimo Edu Marangon, que defendeu a seleção numa Copa América. Aplaudi o ressurgimento de Roberto Dinamite, aplaudido com a camisa da Lusa pela própria torcida do Vasco.

Vibrei com o aparecimento de um menino que vestia a 10 e tinha uma pinta danada de Pelé. Dener era o capeta, e me causou arrepios quando, com o uniforme vascaíno, enfrentou o meu Flamengo. Sofri com as finais do Brasileiro de 1996, quando me imaginei como aquele torcedor que viu o doce lhe ser tirado da boca na hora da mordida. Pelo menos, pude assistir nascer para o futebol um craque-matusalém chamado Zé Roberto.

Enfim, ao longo das minhas quatro décadas de vida, fatos, argumentos e pessoas me fizeram ver que no Canindé mora um gigante. Talvez adormecido. Mas que jamais morrerá graças a apaixonados torcedores que, após 100 anos, já preparam uma nova e, espero, linda atualização dessa história a ser escrita em 14 de agosto de 2120.

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