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Imperdoável

Barbosa no gol do VascoBarbosa no gol do Vasco

Tio. Era assim que se conhecia Barbosa, o homem que nos roubou a Copa. Só muitos depois vim que ele se chamava Moacir. Ele nunca era só Barbosa. 

Acompanhado da filha Tereza Borba, revisitando o céu e o inferno.
Reencotrando a paz de espírito acompanhado da filha Tereza Borba, .

Sempre fui horrível praticando esportes e meus pais não lidavam bem com isso. Na infância passei à força por várias escolinhas, natação, judô, basquete, tênis, atletismo e, claro, futebol. Aos oito anos fui matriculado na escolinha de futebol do Tijuca Tênis Clube, onde, em um campo de terra, um senhor negro ensinava garotos desajeitados da tradicional classe média tijucana a ter mais intimidade com a bola. Na volta para casa meu pai revelou que o “tio” era Barbosa, goleiro da Seleção na Copa de 50 que engoliu um frango.

Era assim que se conhecia Barbosa, o homem que nos roubou a Copa. Só muitos depois vim que ele se chamava Moacir. Ele nunca era só Barbosa. Ele era a marca da derrota, do fracasso, da culpa. Talvez por isso, ensinando moleques, ele era calmo, sorridente e alegre. Ali, no meio de crianças que desconheciam seu ato de vilania, era possível tirar dos ombros o peso de uma nação inteira.

Adorava as aulas do Barbosa porque eram divertidas. Nos anos 70 professores de Educação Física não tinham preocupações lúdicas, eram disciplinadores, enérgicos, sargentos informais, bem ao gosto de um país impregnado de militarismo. Só naqueles dois encontros semanais com Barbosa era possível se exercitar e brincar ao mesmo tempo. Infelizmente não durei muito tempo, ser constantemente rejeitado por meus coleguinhas apavorados com meus constantes desacertos me fez implorar para não mais voltar. 

O matemático e alguém

Anos depois o reencontrei. Gincanas estavam na moda nas escolas, alunos precisavam se desdobrar para cumprir tarefas amalucadas, como encontrar pessoas com um olho de cada cor, arrecadar mais de mil amostras grátis de remédios, coisas assim. Uma dessas tarefas consistia em levar um jogador que tivesse disputado uma Copa do Mundo. Imaginem isso, levar um jogador desse nível a uma escola na Tijuca.

Nós falamos com dois jogadores ainda em atividade nos times cariocas. Ambos se comprometeram, mas depois nos deixaram na mão. Foi aí que me lembrei do Barbosa, que já não dava mais aulas, agora trabalhava na Suderj, era uma espécie de guia turístico das visitas ao Maracanã. Um colega de equipe era filho de um deputado cassado pelo AI-5, mas que ainda tinha seus contatos no mundo político, fez-se a intermediação. Fui lá falar com ele, ele topou, continuava a ser o senhorzinho simpático e sorridente. 

Barbosa e Acácio
Barbosa endossando a então promessa cruzmaltina Acácio.

Lembro bem que esperei Barbosa na entrada da escola com medo dele furar, mas ele chegou cedo. Andamos pelos corredores da escola até o posto de checagem, ali uma professora atestou sua presença, apertou a mão dele e ele foi embora. Durou menos de cinco minutos a atividade. Hoje acho que isso pode ter sido um tanto humilhante. Ninguém o reconheceu. Ninguém pediu um autógrafo (aliás, nem eu). Ele não conversou com ninguém. Entrou e saiu invisível, exceto pela breve checagem que garantiu uns pontinhos para uma competição nonsense.

Na mesma gincana, sabe-se lá o motivo, outra equipe levou Oswald de Souza, um matemático que fez fama dialogando com uma zebrinha na TV falando de probabilidades da loteria esportiva. Pois o matemático que vivia de dar palpites em jogos inexpressivos como Treze x Campinense, vejam só, teve uma recepção mais efusiva e demorada que um ex-titular da Seleção. 

Condenado pelo VAR

Algo sempre me intrigou na sentença condenatória de Barbosa: quantas pessoas viram aquele gol? Consta que tinham 200 mil pessoas no Maracanã, mas quem já esteve naquele velho Maraca raiz sabe que, a depender de onde se estava, era impossível ver detalhes do que se passava longe. E TV não tinha, ou melhor, nem existia TV no Brasil, seria inaugurada meses depois. 

O que todo mundo viu, eu também, é uma imagem precária, de uma câmera posicionada atrás do gol de Barbosa. Por ela se vê Ghiggia entrando em velocidade e ficando cara a cara com o goleiro. Barbosa sai e fecha o ângulo. A bola caprichosamente bate no que se chamava de “montinho artilheiro”, desvia um pouquinho e entra, não se sabe bem se por baixo de Barbosa ou entre ele e a trave. Naquelas condições, ok, uma bola defensável. 

Mas eu gosto de projetar a cena por outro ângulo, a perspectiva do atacante. Ele vem em alta velocidade, com a bola dominada. Ele já venceu toda a linha de defesa, não tem mais ninguém a lhe incomodar. Está dentro da área, ele, o goleiro e os sete metros abertos à frente. Vai chutar forte, com tempo suficiente para buscar a finalização. Sério, todos já vimos centenas de jogadas assim terminarem em gol. É o mais provável, afinal são múltiplas as possibilidades do atacante e o goleiro precisa considerar todas elas em frações de segundos e tentar salvar a pátria – no caso, literalmente.

Barbosa, enfim, foi condenado por gente que não viu o que aconteceu. Uma narrativa que se consolidou sabe-se lá como, mas que se tornou definitiva. O frangueiro, o culpado, o homem que nos envergonhou. Mais de meio século depois, contudo, todo mundo viu, ao vivo, em alta definição, cores bem vivas, a Seleção levar 7 gols, sendo 4 deles em 5 minutos de jogo, se disse na época que era o perdão definitivo dos vice-campeões de 50.

Placar de 7x1
A tatuagem do Mineirazzo conseguiu cobrir a carcomida de 70 anos atrás

O que aconteceu com os reluzentes atletas do Mineirazzo? Nada, estão todos aí, milionários, sorridentes, objeto de desejo de clubes brasileiros, quando estiverem mais velhos não vão precisar ensinar gordinhos a matarem uma bola ou contar histórias para visitantes de estádios. Eram e são heróis, malgrado a vergonha que nos impuseram, da qual aliás, sequer se envergonham.

Só Barbosa é imperdoável. O Brasil é generoso com torturadores, feminicidas, sonegadores, corruptos, milicianos, malandros em geral. Tudo aqui tem perdão, tudo goza do benefício do esquecimento. Só ao Barbosa, quando em vida, se negou a expiação. Suspeito, me permitam a digressão, por favor, por conta dessa coisa tão velada e tão negada, mas ao mesmo tempo tão brasileira, que começa com ra e termina com cismo.

Fico feliz que por conta de seu centenário a memória de Barbosa esteja sendo reconstruída. Que ele receba agora as homenagens que antes lhe foram negadas. Eu não fui nada na vida dele, ele também teve um contato muito furtivo comigo. Mas me senti honrado em ser convidado para escrever sobre ele para dizer, sobretudo, que ele era um cara legal. Parece pouco, não é? Contudo, pensem quantos brasileiros em 2021 estão realmente empenhados em ser uma pessoa legal, preocupando-se com os desejos e angústias de quem mal conhecem?.

Obrigado, Professor Barbosa. Por nada. Por tudo.

Walter Monteiro
Walter Monteiro é advogado, rubro-negro e um apaixonado por futebol.

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