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Geraldino, por onde anda você?

Ser Geraldino é muito mais do que simplesmente ir à Geral. Geraldino é, assim como ser Flamengo, carioca ou sagitariano, um estado de espírito


Geral do Maracanã
Os Geraldinos eram a alma de um estádio de concreto armado, mas que transbordava vida e amor

Muito já se falou sobre a Geral do Maracanã e de seus frequentadores. A saudade (sentida até por quem nunca lá pisou), a precariedade, a popularidade. A disputa por espaço, a visão pouco privilegiada do gramado, a proximidade com os craques (e com os perebas também, claro). As figuras como Mr. M, Zica e a Vovó Tricolor.

Mas então, querido Geraldino, por falar em paixão, em razão de viver, por onde anda você?

Pra começo de conversa, eu diria que 15 anos após o fim da Geral, o Geraldino segue vivo. Afinal de contas, ser Geraldino é muito mais do que simplesmente ir à Geral. Geraldino é, assim como ser Flamengo, carioca ou sagitariano, um estado de espírito; não importa onde você esteja. Da mesma maneira, não existem ex-Geraldinos só porque a Geral acabou.

Por isso, o constante pedido pela volta da Geral, mesmo naquela maquete sem alma padrão FIFA que puseram no lugar do nosso inesquecível Maraca. Por isso também, será eterna a briga da galera do “senta, quero ver o jogo!” com a rapaziada do “quer ver jogo sentado? Fica no sofá de casa” 

Geral do Maracanã
À beira de um fosso, o povão era feliz ao ver os jogos no velho e destruído Maracanã

Ser Geraldino significava também, para muita gente, estar presente na festa (mesmo que pela fresta, certo, professor Simas?), e isso acabou. Algo que certamente agradou a galera do sapatênis, aquela que não quer ver o encontro anual de empregadas domésticas na Disney, que reclamava que os aeroportos mais pareciam rodoviárias e que se orgulharam com os estádios “de primeiro mundo”. Afinal, a massa que frequentava a Geral era a mesma que usava o elevador de serviço e o quarto de empregada e não combina com o camarote VIP nem a experiência ali oferecida.

E por onde andam os Geraldinos em 2020 então? Certamente nos botecos e biroscas espalhados pela cidade, no asfalto e no morro, da cidade do Rio. Mas e os Geraldinos de São Paulo? Os Geraldinos de Belém? Os Geraldinos de Berlin, Wuhan e da Faixa de Gaza? Eles estão, sim, porque certamente ser Geraldino independe da sua lembrança daquele gol no Maraca lotado ou do ingresso guardado na caixa de sapato junto com álbum de figurinha e a playboy da Sheila Carvalho.

Ser Geraldino é ser resistência, é ser antiracista, é ser Marias, Mahins, Marielles, malês.


O cineasta Pedro Asbeg, autor do texto acima, autorizou a incorporação nesta postagem do documentário “Geraldinos”, do qual é o diretor.

Pedro Asbeg
Cinesta, dirigiu, entre outros, os documentários "O Deus da Raça", "Democracia em Preto e Branco" e "Geraldinos".

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