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Eu e a Lusa no Maracanã, minha primeira noite

Fui ver a Lusa no Rio, ganhamos, calamos o Maracanã, dormi no Canindé, em cima da faixa da torcida e enrolado na bandeira, aquilo, sim, era liberdade.

O “Jornal dos Sports” destacou a boa atuação de Tatá, autor do gol da vitória da Lusa

Que a Portuguesa estava de branco, disso eu lembrava. Que ganhou do Vasco, também: 1 a 0. Foi meu primeiro jogo em estádio fora de casa, e logo no Maracanã.

Era de noite. Disso eu também lembrava. Havíamos nos mudado para o Rio no ano anterior, em 1972. Pai transferido pela firma, aquelas coisas. Morava em Copacabana, na rua General Barbosa Lima, no segundo andar do prédio. No primeiro, vivia uma família simpática com três filhos mais ou menos da mesma idade da gente. Na verdade, dois filhos e uma filha. O pai, segundo meu pai, era figura conhecida na cidade, escrevia em jornais e compunha sambas. Era o seu Sérgio Cabral. Eram todos vascaínos, assim como o Joãozinho, filho do zelador, um português de cujo nome não me lembro.

Eu jogava bola na rua. O Serginho, filho do seu Sérgio, era mais velho e mais amigo do meu irmão mais velho. Eu era o irmão do meio e tinha a mesma idade que a menina. Lembro que era bonita e bronzeada. Todo mundo no Rio parecia bonito e bronzeado.

Gostava do Zecão, goleiro da Portuguesa. Ele usava uma camisa amarela com faixas pretas nos ombros. Pedi para minha mãe uma igual. Ela achou uma cor de laranja. Quebrou o galho. Usava um calção acolchoado nas laterais e meiões pretos bem grossos, presos por uma joelheira para não me arrebentar no campo de paralelepípedo da rua General Barbosa Lima. Minhas luvas eram marrons com borracha vermelha. Eu me sentia o Zecão.

Acho que já tinha ido ao Maracanã antes dessa noite de quarta-feira, 19 de setembro de 1973. Sim, já tinha ido. Meu pai gostava de levar a gente ao Maracanã para ver jogos aos domingos, menos os do Flamengo porque ele dizia que tinha muita gente. Então a gente ia ver o Botafogo, o Fluminense e o Vasco. E a seleção brasileira, porque no ano anterior teve um torneio chamado Independência com 20 times, tipo uma Copa do Mundo, para comemorar um tal de Sesquicentenário que eu não sabia direito o que significava e nem conseguia falar direito porque era uma palavra muito grande.

Jogo do Brasil sempre tinha mais de 100 mil pessoas, mas aí meu pai não ligava. Ele não gostava mesmo era da torcida do Flamengo e do Corinthians. O Maracanã era enorme e a gente entrava de graça porque meu pai tirou uma carteirinha para a gente. Trocaram as fotos da minha com a do meu irmão. Eu sempre achava que iam prender a gente porque na minha carteirinha tinha a foto do meu irmão, e não a minha. Nunca prenderam a gente. Era bom entrar de graça no Maracanã, apesar de eu sempre ficar com medo de ser preso.

A primeira noite de um torcedor

Mas a Lusa eu ainda não tinha visto no Maracanã, não. Aí meu pai levou a gente naquela noite de quarta-feira. Vazio, só com oito mil pessoas, o estádio parecia exagerado para aquele jogo. A gente ficou quase sozinho na arquibancada. Mas foi legal. Quando estava acabando, fizemos um gol. Eu achava que tinha sido do Xaxá. Foi do Tatá, pesquisei. Troquei o “T” pelo “X”.

A Portuguesa tinha um Xaxá e um Tatá. Ganhamos de 1 a 0. O Vasco jogou de camisa preta, igual à do Joãozinho, filho do zelador. Quando cheguei em casa coloquei meu radinho Mitsubishi com capa de couro debaixo do travesseiro com um treco no ouvido que chamavam de “egoísta”, porque quando ligava o fio no rádio ninguém escutava nada, só quem colocava aquilo no ouvido.

Escutei a repetição do gol, acho que o narrador falou Xaxá, por isso fiquei com aquilo na cabeça por décadas. Era o José Carlos Araújo, da rádio Globo. Mas ele não era o principal narrador da rádio Globo. A rádio Globo tinha dois principais, um chamava Waldir Amaral e parecia narrar com uma batata quente na boca, dizia que o cara que fazia gol era um indivíduo competente, e o outro era o Jorge Curi e berrava muito, e ainda tinha um cara que falava dos juízes chamado Mário Vianna que sempre que saía um gol gritava “gooooool legaaaaaal”, e como eu sempre achava os gols legais, em geral concordava
com ele.

Eu tinha só nove anos, e não me peçam muitos mais detalhes além desses: Lusa de camisa branca, Vasco de preto, Maracanã vazio, 1 a 0, gol do Tatá que eu achava que era o Xaxá, carteirinha com a foto do meu irmão, repeteco no rádio com o José Carlos Araújo. Nos meus três anos de Copacabana, foi a única vez que vi a Portuguesa no Maracanã. Legal que ganhou do time do seu Sérgio e do Serginho e do Joãozinho. Mas não lembro de ter tirado onda com nenhum dos três, nem de ter falado sobre o assunto no dia seguinte na escola, que ficava na Gávea. Nem camisa da Portuguesa eu tinha, só aquela cor de
laranja de goleiro, sem o distintivo. Só eu sabia que era parecida com a do Zecão.

De Campinas ao Maraca, via Dutra

“O Globo” ressaltou a perda de gols do Botafogo e a maior competência da Portuguesa

1981, janeiro. Eu já morava em Campinas, interior de São Paulo. A firma transferiu o pai, aquelas coisas. Tinha 16 anos e era um veterano de torcida organizada. Com 13, entrei para a Força Jovem. Com 15, para a Leões da Fabulosa. O jogo pela Taça de Ouro seria num sábado à tarde no Maracanã. Pedi ao meu pai para ir de caravana. “Não é perigoso?”, ele perguntou. “É contra o Botafogo, não é perigoso”, respondi. E dava para ir sem perder aula, o jogo era sábado, dia 31. Domingo eu estaria de volta. “Mas caravana não é perigoso?”, perguntou meu pai de novo, e eu disse que não, vivia viajando em caravana pelo interior de São Paulo, o ônibus me pegava na estrada em Campinas e eu sempre voltava são e salvo. Então vai, disse meu pai, mas toma cuidado e não faz besteira.

A caravana ia sair sexta à meia-noite do Canindé. Vesti a camisa vermelha com o leão amarelo bordado atrás, peguei o Cometa para São Paulo depois da aula e fui direto para o estádio. Eu tinha 16 anos e a única coisa que tinha bebido na vida fora um vinho branco fajuto e quentão numa festa junina. Fiquei tonto e resolvi que aquilo não era muito minha praia. Então, como prometi ao meu pai, não ia fazer besteira. O pessoal começou a chegar e fomos comer bolinho de bacalhau na Lanchonete Tri-Fita Azul, debaixo do ginásio. A sede da torcida ficava junto das piscinas, numa sala grande onde a gente guardava faixas, bandeiras e tambores. Separamos tudo e chegou o ônibus, da Benfica Transportes, bege e novinho. Os diretores da Portuguesa arrumavam tudo para a torcida, inclusive ônibus da Benfica, já que os donos eram portugueses e
cediam de graça.

Não sei por que tinha de sair à meia-noite, a gente ia chegar ao Rio cedo pra cacete, mas ônibus de torcida sempre atrasa. Saímos já de madrugada, as pessoas com sono. Dormi o tempo todo, tinha acordado cedo para a aula; não teve muita zoeira, nossa torcida tinha muitas famílias, pai, mãe, avós, filhos pequenos, filhas adolescentes, nada de muito barulho. Tinha um amigo, o Marcelo Parisi, que era carioca. Ele queria puxar uns cantos. Durou pouco, logo no começo da Dutra todo mundo já estava dormindo.

Flavio Gomes (na foto, embaixo, o terceiro da esquerda para a direita), com seus companheiros

Chegamos de manhã ao Rio, fomos para Copacabana. Ficamos lá batucando e balançando as bandeiras. Depois comemos em uma churrascaria e fomos para o Maracanã. O jogo era contra o Botafogo, não tinha perigo. Vinte mil pagantes e uns quebrados. Eu, veterano de Maracanã com 100 mil, não me espantei com nada. Muitos nunca tinham ido. Se ficaram admirados com aquele gigante de concreto, não disseram nada. Torcida visitante não se deixa impressionar por estádio nenhum, mesmo se for o Maracanã.

Dois minutos de jogo, pênalti. Daniel González bateu e perdeu, puta que pariu! Mas o time era bom. A Lusa estava de vermelho, lembro bem. Jogava de camisa adidas, coisa linda. A campanha naquela fase da Taça de Ouro foi tão boa que a “Placar” até publicou pôster de página simples. A foto escolhida foi justo daquele jogo no Maracanã. Ficou na parede do meu quarto um tempão. Daniel González se recuperou e fez um gol depois de perder o pênalti. Ganhamos de 1 a 0. Meu segundo jogo da Lusa no Maracanã, duas vitórias por 1 a 0. Invicto, 100%. Voltamos felizes, cansados, suados. Calor da gota, o Rio
é quente. Em janeiro, mais ainda.

Não tinha celular. Também não tinha como telefonar para casa para dizer que estava tudo bem, mas meu pai não tinha medo de que as coisas dessem errado, eu era tranquilo, bom aluno e não me metia em confusões. Viajamos a noite toda, ônibus de torcida organizada sempre demora mais, todos dormiram bastante mais uma vez. Chegamos de madrugada a São Paulo, entramos no Canindé e ainda estava escuro. Fui ajudar a guardar as bandeiras, as faixas e os tambores. Era muito cedo, o metrô ainda não tinha começado a funcionar e meus amigos não tinham carro para me dar carona. Teria de esperar o metrô
abrir.

A volta pra casa e o justo sono da vitória

Fiz uma cama dobrando a faixa grande da Leões da Fabulosa. Me enrolei numa bandeira, deitei sobre o tecido grosso verde e vermelho com as letras pintadas de branco e apaguei. Só fui acordar com o sol quente que transformou a sala da torcida numa sauna e com o barulho dos sócios aproveitando o domingo de sol nas piscinas. Estava todo grudento e louco para escovar os dentes. As meninas de biquíni sorriam para nós, que tínhamos voltado da longa jornada vitoriosos e cansados.

Foi a primeira vez na vida que não dormi numa cama, creio. E a primeira vez que dormi fora de casa, também. Cruzei o terreno baldio atrás da escola Técnica Federal, peguei o metrô na Ponte Pequena, desci na Luz, caminhei até a rodoviária, peguei o Cometa para Campinas e cheguei em casa na hora do almoço de domingo. Estava moído e feliz. Meu pai abriu um sorriso ao me ver passar pelo portão, achou um exagero fazer tudo aquilo só para assistir a um jogo, mas como também torce para a Portuguesa nem falou nada e só disse que eu precisava de um banho urgente.

Não contei que dormi sobre a faixa da Leões, achei que ele ia ficar meio aborrecido com aquilo, esse negócio de dormir na rua ele não gostava muito, não, e eu não estava a fim de levar bronca. Afinal, já era quase um adulto, não tinha mais idade para levar bronca. Fui ver a Lusa no Rio, ganhamos, calamos o Maracanã, dormi no Canindé, em cima da faixa da torcida e enrolado na bandeira, aquilo, sim, era liberdade.

Flavio Gomes
Jornalista, é comentarista dos canais Fox Sports

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