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Do alto de uma nuvem, uma lembrança que não se apaga: Barbosa e Ghiggia

Setenta anos depois da vitória do Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, os dois personagens principais daquela tarde resolveram voltar ao palco que marcou suas vidas. Arrumaram lá no céu uma nuvem emprestada por São Pedro e voaram até o Maracanã. E assim foi o papo de Alcides Ghiggia e Moacyr Barbosa.


Mira, muchacho Moacir! Quem diria que iríamos chegar pertinho do Maracanã novamente, hein? Ainda bem que os homens lá de cima deixaram a gente fazer esse passeio em cima dessa nuvem…

Pois é, hermano Alcides. Quando eu estava lá embaixo, toda vez que me chamavam para ir ali era pra lembrar daquele dor de cabeça que você me causou, né?

Ah, hermano. Não me culpe. Eu só fiz a minha obrigação.

Eu sei, amigo. Estou brincando com você. Ainda bem que as coisas aqui no Céu são mais leves, justas. Mas, deixa eu falar baixinho pros anjinhos que nos acompanham não nos ouçam: lá embaixo, comi o pão que o diabo amassou! Foi pesado!

Hombre, sei de tudo isso. Às vezes, até bate um arrependimento de ter feito aquele gol por causa do sofrimento que te causou. Só aqui de cima que a gente nota como são cruéis nossos irmãos lá de baixo.

Eu até entendo eles. E os perdoo. A paixão pelo futebol é muito grande. Nós mesmos éramos apaixonados, né?

Si, si… lembro como se fosse hoje como a comemoração antecipada de vocês nos deu raiva, mais gana para buscarmos aquela vitória.

Opa, péra lá! Comemoração nada. Isso aí foi coisa de políticos, governantes e jornalistas que desrespeitaram vocês.

És verdad! E a pressão foi tão grande que tinham que arrumar um culpado, né?

Sobrou pra mim. Nessas horas, sempre sobra para o goleiro. Aquele exagero antes do jogo mexeu com todo mundo que, na hora da raiva, escolheram um vilão. E paguei por isso até o último dia da minha vida lá embaixo. Até criei uma frase que é dita até hoje: “No Brasil, a pena máxima é de 30 anos; mas eu peguei prisão perpétua”.

Dá-me cá um abraço, hermano! Agora isso acabou. Não há mais motivo para sofrimento.

Mais ou menos, Alcides. Eu não sofro mais. Mas os que manipulam a paixão do povo ainda estão lá. Meninos, negros como eu, são alvos fáceis dos preconceituosos que estão sempre em busca de um vilão, de um Judas para malhar.

Infelizmente, 70 anos depois, ainda é assim, né? Você foi considerado um vilão e sempre foi maltratado por isso. Nós fomos chamados de herois. Mas logo nos esqueceram. E só lembravam da gente em dias como de hoje.

É, Alcides! Por isso, acho que nós e nossos companheiros estamos hoje num lugar melhor. Mas tem hora que bate aquele desejo de ir à forra, sabe?

Contra nosotros?

Mas é claro! hahahahaha. Estão dizendo que vai ter uma Copa do Mundo lá na tua terra em 2030. Tem um menino, preto como eu. Dizem que será o maior goleiro do Brasil. Eu sou Barbosa, mas ele é Souza. Hugo Souza. Conhecido como Neneca. É grandão pr caramba! Se tiver um outro Alcides do outro lado pra se meter a besta, ele vai parar, hein?

En mi casa, sou mais a Celeste novamente. Quer apostar?

Aposto! Mas aqui no céu não tem dinheiro…

Sin problemas, pague-me com a sua infinita amizade! Mas enquanto isso, hermano, olhe lá pra baixo. Você é um dos heróis daquele palco. Sabe por quê? Ali, você ajudou a ensinar mais de 200 mil pessoas que só os grandes sabem usar a derrota como motivo para o triunfo. Naquela cancha verde ali, meus companheiros comemoram, sem saber que nascia a maior potência da história do futebol. E você é um dos responsáveis por isso!

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