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Batismo e descentralização: o Cruzeiro nascia como gigante

O “Jornal dos Sports” destacou o amplo domínio mineiro no triunfo celeste no Maracanã

O Maracanã acabou sendo um dos palcos em que um feito mineiro foi o pretexto que faltava para descentralizar o futebol brasileiro.

Dificilmente uma relação dos maiores jogos da história do Cruzeiro incluirá algum no Maracanã. Não que o time jamais tenha atuado bem no mais emblemático estádio brasileiro. Houve vitórias convincentes e categóricas dele no palco carioca. Ocorre que as partidas mais marcantes, que decidiram títulos ou consolidaram poderio, desenrolaram-se em outros cenários: Pacaembu, Morumbi, Beira-Rio, Arena do Grêmio, Arena da Baixada, Vila Belmiro, Parque Antarctica, Nacional de Santiago…

Mas, buscando lá no fundo do baú, consigo identificar um jogo que ajudou a entronizar o Cruzeiro Esporte Clube entre os grandes do futebol brasileiro. E já vai mais de meio século. Foi no Maracanã antigo, o Maraca raiz, não a arena atual com aquele padrão Fifa que pareceu igualar os principais estádios brasileiros na condição de recintos de bons mocinhos e comidas gourmets.

Um time que nascia para ser gigante

Em 23 de novembro de 1966, o time das cinco estrelas fechou o confronto com o Fluminense pelas semifinais da Taça Brasil. Recém-campeão da Taça Guanabara, o tricolor estreava na competição já nessa fase, ao passo que os cruzeirenses já haviam passado por duas anteriores: vitórias sobre o Americano por 4 a 0 em Campos e 6 a 1 em Belo Horizonte; empate a zero com o Grêmio no Olímpico e virada de 2 a 1 no Mineirão. No mesmo estádio estalando de novo na Pampulha, a Raposa havia vencido o Flu por 1 a 0, duas semanas antes, com um gol aos 35 segundos de partida. Marcado por Evaldo, que no início do ano trocara as Laranjeiras pelo Barro Preto.

No Maracanã, previa a maioria da crônica esportiva nacional, o Fluminense teria toda a condição de dar o troco. Mesmo com a curiosidade geral sobre o jovem quadro belo-horizontino, que no início do ano goleara o Flamengo por 6 a 2 por um quadrangular no Mineirão e vencera amistoso com o Santos de Pelé por 4 a 3 no mesmo local.

O JS ainda ressaltou a grande atuação de Tostão naquela noite

Mesmo com gramado molhado pela chuva, o Cruzeiro foi sempre melhor e impôs o estilo que começava a encantar o futebol do país, em que pontificava o tripé de meio-campo formado por Piazza, Dirceu Lopes e, sobretudo, Tostão ‒ o caçula do time, com apenas 19 anos, que disputara a Copa do Mundo meses antes na Inglaterra e fizera o gol de honra na derrota por 3 a 1 para a Hungria.

Mas o dono da noite foi Evaldo. No estádio que tão bem conhecia., ele abriu o marcador logo aos 13 minutos de jogo. Aos 27, o ponta-esquerda Dalmar, substituto do também ex-tricolor Hilton Oliveira (contundido), ampliou. Aos 5 do segundo, novamente Evaldo marcou. Nessa etapa, Procópio, mais um ex-jogador da equipe carioca, foi expulso juntamente com Samarone. No penúltimo minuto, um gol contra de Piazza definiu os 3 a 1.

Depois do Maraca, uma final histórica

Com a vitória, o Cruzeiro se habilitou a decidir a oitava Taça Brasil com o Santos nas duas quartas-feiras seguintes. Os mineiros em busca de conquista inédita, os paulistas tentando a sexta consecutiva. Com dois triunfos, o Cruzeiro se firmou de vez no cenário nacional. Foi o detalhe que faltava para que a CBD ampliasse o Rio-São Paulo já a partir de 1967, com a inclusão do recém-campeão, do também mineiro Atlético, dos gaúchos Grêmio e Internacional e do paranaense Ferroviário. Era o embrião do Campeonato Brasileiro.

Bem menos badalada do que os 6 a 2 sobre os santistas no Mineirão e os 3 a 2 de virada que consolidaram a conquista no Pacaembu, a noite de Evaldo contra o ex-time no Rio assinalou uma espécie de batismo do Cruzeiro. Mais famoso estádio brasileiro, o Maracanã acabou sendo um dos palcos em que um feito mineiro foi o pretexto que faltava para descentralizar o futebol brasileiro.

Cláudio Arreguy
Jornalista, trabalhou no Jornal do Brasil, Estado de S. Paulo, site Netgol.com, ESPN Brasil e Estado de Minas e é atualmente comentarista do Ultrajano

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