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Barcelusa: o canto do cisne nos 100 anos da Portuguesa

BarcelusaPortuguesa que disputou a Série B do Campeonato Brasileiro de 2011 ganhou o apelido de Barcelusa, alusão ao Barcelona, considerado o melhor time da época.

Um time ofensivo, fatal, que tocava a bola de maneira precisa, sem dar ao adversário a chance de jogar. Era o Barcelona de Guardiola, que dominou o futebol entre 2008 e 2012. Mas, guardadas as devidas proporções, foi a Portuguesa na Série B de 2011

A sabedoria popular nos conta que, quando está prestes a morrer, o cisne entoa um dos mais belos cantos do reino animal, como fosse um rito doce e ao mesmo tempo melancólico para marcar o fim de sua passagem pela vida. 

Pode soar frio e doloroso no coração de uma torcida tão apaixonada,  mas a metáfora é perfeita para explicar o ano de 2011 para a Portuguesa.

Não foi o único time marcante da Lusa, mas foram pouquíssimos cercados por uma aura tão mágica. Talvez Dener tenha sido um ilusionista solo em seu período no Canindé, mas como time, de 1 a 11, daquele que o torcedor escala sem gaguejar, são raros o que deram espetáculos como os da Barcelusa, campeão da Série B daquele ano.    

E não se iluda com o tamanho do palco. A segunda divisão brasileira, na era dos pontos corridos, se tornou uma terra onde os fracos não têm vez. A própria Portuguesa já purgava por lá há dois anos. Nas duas tentativas anteriores, terminou a competição na inglória 5a colocação. Justamente aquela que vê os times de cima alcançarem a elite e sente a porta se fechar violentamente em sua frente.

Mas algo diferente começou a se desenhar naquele mês de maio. Precisamente no dia 21 de maio de 2011.

Primeiro ato: os alicerces

Naquela tarde de sábado, no estádio do Canindé, a Portuguesa estreou na Série B de 2011 contra o Náutico. Uma estreia dura. O Timbu não pode jamais ser chamado de um time insignificante. Era uma adversário à altura – e que dali a 38 rodadas seria o vice-campeão e também jogaria a Série A no ano seguinte. E mais: jogando em casa, a obrigação da vitória era da Lusa.    

Porém, o que era para ser um jogo tenso, virou uma tarde memorável. Portuguesa 4 x 0. Uma estreia de encher os olhos de qualquer torcedor rubro-verde. Via-se ali um time coletivo, cooperativo, envolvente, mortal.

Mas não era nada além do que o início de uma obra. Um alicerce, que leva um tempo para ficar pronto e ser capaz de sustentar sólidas paredes. Era um rascunho, um projeto que levou mais três rodadas para ficar pronto, e custou 7 daqueles 9 pontos. 

Mas valeu cada um deles. Na quinta rodada, a Barcelusa saiu das coxias e entrou no palco.

Segundo ato: o esquadrão se ergue

BARCELUSA

O que se viu da 5a a 8a rodada foi pura mágica.

Eram quatro jogos duros. Adversários de Série A. Campeões. Em casa, três rivais paulistas duríssimos, Guarani, Bragantino e São Caetano. O jogo fora era contra o Goiás, no Serra Dourada, onde até os gigantes do futebol tombam com frequência. 

Foram 17 gols em quatro jogos. Mais de 4 por partida. Lusa, lutadora, 3 x 2 Guarani. Lusa, impiedosa, 5 x 0 Bragantino. Lusa, no coração do Brasil, 4 x 1 Goiás. Lusa, magistral, 5 x 2 São Caetano.

Quem poderia julgar uma torcida tão sofrida pela euforia incontrolável? Já eram 23 gols em 8 rodadas. A Lusa era líder. 

E foi aí que o elenco, até então de jogadores de ainda pouca expressão ou rejeitados por clubes grandes, começou a ser comparado simplesmente com o Barcelona de Pep Guardiola, que encantava a Europa naqueles tempos.

Terceiro ato: os craques ganham grife

Quem tem a bola, joga, quem não, assiste ao jogo. Um time que toca a bola de maneira precisa, tirando a posse do adversário, não dá a menor chance de este preparar uma jogada. Mas, mais do que isso, não era um time com posse de bola inócua, mas que estava sempre pronto para o próximo o bote fatal no adversário.

Esse era o Barcelona treinado por Guardiola, que dominou o futebol europeu entre 2008 e 2012. Mas, guardadas as devidas proporções, era a Portuguesa na Série B do Campeonato Brasileiro de 2011.

Não demorou para que, de forma muito bem-humorada, o apelido Barcelusa emplacasse. E, indo além, que o elenco brasileiro começasse a ser comparado com o espanhol – de novo, de forma descontraída e descompromissada, com a irreverência que só o torcedor brasileiro tem. Messi, Xavi, Iniesta e o próprio Guardiola ganharam seus correlatos nacionais.

A Barcelusa, porém, tinha muito mais que o quarteto protagonista. O goleiro era Weverton, que seria medalha de ouro na olimpíada Rio-2016 e que acabou de ser herói do título paulista do Palmeiras. 

Os laterais eram Luis Ricardo, um atacante que virou lateral e acabou jogando demais e foi contratado pelo São Paulo, e Marcelo Cordeiro, essencial no esquema.  

Os zagueiros Mateus Alves e Rogério eram os menos badalados, mas fizeram uma dupla muito segura e eficiente. 

Os volantes eram Ferdinando, o clássico cabeça de área cão de guarda, e Guilherme, muito técnico, que depois foi para o Corinthians e já está na Europa há anos.

E, num time da Portuguesa, jamais poderia faltar um prata da casa. O representante da base era Henrique, xodó da torcida.

E tinha mais: Renato Chaves, Raí Diego, Boquita, Lucas Gaúcho, Júnior Timbó, Leandro Love e Rafael Silva. cada um com sua importãncia e seu momento. Todos peças essesncias para o funcionamento da máquina rubro-verde. 

Um time que traz doces lágrimas quente e reconfortantes aos olhos de torcedor da Lusa.

Quarto ato: liderança, acesso e título

Uma derrota para o ASA na 9a rodada fez o time pôr os pés no chão. A euforia contida foi essencial para todos olharem para a linha de chegada e nadarem de braçada até o acesso. A Lusa reassumiu a ponta com uma vitória por 1 x 0 sobre o Salgueiro e nunca mais perdeu a posição.

Numa toada consistente, em que o bioritmo normal foi o de três vitórias para cada tropeço, o time chegou ao dia 22 de outubro com a possibilidade de, naquele sábado, carimbar seu passaporte para a Série A. Além daquele jogo, faltavam mais seis rodadas. 

Mas esperar não condizia com aquele time. Mais uma vez 3 gols. Mais uma vitória, sobre o Americana. 

A Barcelusa subiu.

A Portuguesa voltou para a Série A.

Mas faltava mais. O título. O grito de campeão. Mais 20 dias e três rodadas e aconteceu num empate por 2 x 2 com o Sport. 

A Lusa é campeã.

Ato final: e depois?

A Barcelusa ganhou o mundo. O jornal espanhol El País apresentou o time ao Velho Continente, chamando-o de legítimo representante do jogo bonito.

Foram 23 vitórias, 12 empates e meras 3 derrotas. O ataque marcou 82 gols. Nenhuma torcida da Série B gritou gol tantas vezes. 

O que vem depois disso não importa para nós. Pelo menos não hoje, no Dia do Centenário da Associação Portuguesa de Desportos.

E vale a pena ser torcedor da Lusa? 

Se tudo vale a pena quando a alma não é pequena, vale demais quando se tem uma alma gigantesca, tão grande que supera a lógica que justifica torcer por um time.

Assim como a sabedoria popular explica o canto do cisne, há lendas que falam do canto da fênix. Igualmente doce e triste como o do cisne, é entoado pela ave mitológica quando está prestes a morrer, num incêndio que, literalmente, a consome de dentro para fora.  

Mas diferente do cisne, a Fênix renasce das próprias cinzas. É uma metáfora de esperança. algo que toda glória um dia foi. 

Tu és grande, ó Portuguesa! Pra nós, és sempre um time campeão!

Fernando Badô

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