EspeciaisMaracanã 70

BARBOSA, BARBOSA, BARBOSA!!!

Um Maracanã com mais de 200 mil pessoas recebeu uma final de Copa que até hoje mexe com os sentimentos dos brasileiros

E aí eu vi um jogador de camisa azul celeste sem marcação pela direita com a bola nos pés. E chutar forte contra Barbosa, um goleiro que parece ter crescido do nada e se agigantado mandando a bola para muito longe dali. Para fora do campo. Garantindo um empate de 1 a 1 e o título para o Brasil.

Meu pai está chorando. Nunca o vi chorar. E o Antoninho, o vizinho que só ri, está chorando também. E o Marcinho, e a Zuleika…? Todos choram. No alto dos meus quatro anos de idade, deduzo que algo terrível aconteceu. Uma dor que atinge um grupo inteiro e que eu não consigo entender. Afinal, sou só uma criança que não consegue compreender por que todos estão chorando.

Aquele dia, estava estranho. Todos os adultos ao meu redor normalmente eram alegres e falavam muito. E naquele dia, além da choradeira geral, o silêncio era imperativo. Algo acontecia. Algo aconteceu. E finalmente me disseram o motivo: a seleção uruguaia de futebol tinha derrotado a do Brasil em pleno Maracanã por 2 a 1 e levou a Taça Jules Rimet para Montevidéu, deixando-nos uma grande frustração. Um enorme tristeza coletiva. E às lágrimas meu pai, o Antoninho, o Marcinho, a Zuleika e milhões de brasileiros.

A coincidência fez com que Brasil e Uruguai, os finalistas, dividissem a página central do álbum da Copa

Mas o meu mundo girou de repente. Tudo ficou colorido. Fui jogado, sem sofrimento ou dor, num tubo recheado de cristais coloridos, que passavam por mim sem me tocar e que ziguezagueavam freneticamente. Conhecia aquele ambiente lisérgico. Eu estava flutuando num caleidoscópio. A “viagem” terminou logo e fui jogado delicadamente na calçada de um gigante de concreto que literalmente vibrava suas estruturas enormes. Subi rampas, percorri corredores, entrei num elevador que me esperava de portas abertas e que me engoliu sem respeito. E me levou pro alto até escancarar suas portas e jogar na minha cara uma das mais impressionantes visões da minha vida. E que me acompanharia para sempre: uma luz intensa, agressiva e impactante que quase me atirou de costas na parede traseira do elevador. Um flash que me cegou por segundos e depois me apresentou a uma plateia iluminada, silenciosa e compactada ao redor de um gramado muito verde. Um ascensorista, que surgiu do nada, me empurrou delicadamente do elevador para dentro daquele cenário:

– Vai lá, moleque. Dá sorte pro Brasil.

E então eu vi. Era uma partida de futebol. E o gigante que me engoliu, o Maracanã. Um monstro lindo. Iluminado e enfeitado pela massa humana que se espremia em grandes arquibancadas, em cadeiras azuis ou em pé, na borda de um fosso. Torcedores espremidos e tensos. Afinal, as seleções de Brasil e Uruguai jogavam a final da Copa do Mundo de 50.

Do alto, o Maracanã construído para ser o maior símbolo do esporte brasileiro

E aí eu vi um jogador de camisa azul celeste sem marcação pela direita com a bola nos pés. E chutar forte contra Barbosa, um goleiro que parece ter crescido do nada e se agigantado mandando a bola para muito longe dali. Para fora do campo. Garantindo um empate de 1 a 1 e o título para o Brasil.

A torcida, que se misturava naquele anel gigantesco, saiu do assustadíssimo silêncio para uma reverberadora comemoração. E para os gritos “Barbosa, Barbosa,  Barbosa!!!”, o goleiro herói. O uruguaio Alcides Ghiggia, que chutou forte e com raiva, desabou na grama, aos prantos e a torcida iniciou um grito de refrão ensurdecedor: é campeão! O Maracanã, pulsava. Tinha vida.

O Brasil foi campeão. Eu quis festejar também, mas… fui mandado de volta para o mundo mágico do meu caleidoscópio e desabei na minha casa. Onde a choradeira resistia. Na verdade viajei num sonho. O Ghiggia não errou o chute. O Barbosa não fez a defesa milagrosa. O campeão era o Uruguai, o Brasil inteiro chorava.

Não tenho mais quatro anos há quase 70 anos. Meu velho pai, que naquele sonho vi chorar, já se foi, com o Antoninho, o Marcinho e a Zuleika. E o Maracanã. um gigante histórico, com seu jeitão malandro de carioca abusado, e que sempre despertou doentios ciúmes do Cristo do Corcovado, deixou de ser um estádio, por conta da veloz e insaciável modernidade, para se transformar numa comportada e engravatada arena.

E eu, de vez em quando, em pesadelos, me revejo com quatro anos, vibrando com uma defesa histórica que Barbosa nunca fez. Mas que insistia em fazer no meu imaginário que não se conformava com o choro do meu pai, do Antoninho, do Marcinho, da Zuleika e de milhões de brasileiros.

Mas confesso que no dia em que já adolescente fui ao Maracanã pela primeira vez, tive uma arrepiante sensação de ouvir uma enorme torcida enlouquecida gritando quase histérica:

-BARBOSA, BARBOSA, BARBOSA !!!

Nelson Brandão
Jornalista e escritor, trabalhou nos seguintes veículos: O Globo e EXTRA. É autor de "Pô, que mentira, pai - as aventuras e desventuras de um repórter".

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