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A cruz do Maracanazo traz o peso do racismo

O gol sofrido na final de 1950 perseguiu Barbosa, mas o estigma de vilão só veio a surgir anos depois, por racismo

Acusado pelo frango que nem se sabe se frango foi, merece ter a sua memória recuperada para a história do futebol brasileiro como aquilo que de fato representou: um dos maiores goleiros que passaram pelos nossos campos desde que, por aqui, alguém começou a chutar uma bola.

O jornal “O Mundo”, na edição de 15 de julho de 1950, véspera do último jogo da Copa do Mundo do Brasil, sintetizou a certeza do que aconteceria no gramado com a foto da Seleção Brasileira e a manchete indubitável: “Estes são os campeões do mundo”. Falando com a imprensa, o técnico uruguaio Juan Lopes concordou: “Tudo faremos para não estragar a festa do Maracanã e não levarmos uma goleada”.

O estádio estava lotado. Portões foram arrombados, catracas foram puladas, e especula-se que em torno de 200 mil pessoas se aboletaram no Maracanã. Nas tribunas, notava-se a presença de graúdos como Nelson Rockfeller, Yves Montand, Simone Signoret, André Maurois, o presidente Dutra e Jules Rimet.

O Brasil formou com Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. O Uruguai veio com Máspoli; Matias Gonzáles e Tejera; Gambetta, Obdúlio Varela e Rodriguez Andrade; Ghiggia, Júlio Perez, Miguez, Schiaffino e Móran.

O jogo teve todos os ingredientes para se transformar numa das partidas lendárias da história do futebol. Entre 1986 e 1987, o jornalista Geneton Moraes Neto entrevistou os jogadores brasileiros que participaram da partida. A intenção de Geneton era a de acabar com as dúvidas que existiam sobre o que ocorreu naquele dia 16 de julho. Ao publicar o livro “Dossiê 50”, com as entrevistas dos jogadores, Geneton concluiu que não havia como resolver as polêmicas, já que cada um parecia ter participado de um jogo diferente.

O livro de Geneton virou um documentário, “Dossiê 50 – Comício a Favor dos Náufragos”

Os mais supersticiosos viram, de cara, sinais preocupantes: a bandeira do Brasil foi hasteada de ponta-cabeça e a seleção perdeu na moedinha pela primeira vez no torneio, tendo que começar jogando no lado do campo contrário ao do que estava habituada.

O primeiro tempo foi encrencado. O Brasil chutou mais, mas foi o Uruguai que quase abriu o placar, com um chute de Miguez na trave. Por volta dos 27 minutos teria ocorrido o famoso tapa que Obdúlio Varela deu na cara de Bigode, para intimidar o brasileiro. Segundo o próprio Bigode, “Obdúlio Varela deu um tapinha em mim pelas costas para pedir calma. Eu tinha dado uma pancada em Júlio Pérez”. O ponta-esquerda Chico, por sua vez, jura que viu Obdúlio estapear Bigode. A narração do jogo não esclarece o lance.

O Brasil abriu o placar no início do segundo tempo, com o gol de Friaça. Schiaffino empatou aos 20 minutos e Ghiggia virou treze minutos depois.

O fato e as versões

Gravou-se na memória coletiva a história de que o gol de Ghiggia colocou o Maracanã em silêncio sepulcral até o apito derradeiro do árbitro George Reader. Paulo Perdigão, que ouviu diversas vezes a narração da partida para escrever “Anatomia de uma Derrota”, contesta o mito do silêncio absoluto. A transmissão radiofônica registra que a torcida cantou o tempo inteiro.

Obcecado pela partida, Perdigão fez um scout minucioso do que aconteceu. O Brasil deu 30 chutes a gol, o Uruguai deu 12. Máspoli fez 10 defesas, contra 4 de Barbosa. O mito de que os uruguaios desceram o sarrafo é facilmente desmentido: o Brasil fez 21 faltas, contra 11 dos jogadores da Celeste.

A consulta aos jornais da época mostra que o resultado ganhou dimensões de tragédia coletiva. As primeiras reações da imprensa ressaltaram o bom jogo dos uruguaios, lamentando a derrota brasileira. Aos poucos, porém, o imaginário da tragédia foi sendo alimentado. Nelson Rodrigues afirmou que o Maracanazo era a “nossa Hiroshima”. O Esporte Ilustrado concluiu que “o colosso do Maracanã, sede de grandes espetáculos de sangue, suor e lágrimas, foi palco da maior tragédia já registrada em toda a história do futebol”.  Paulo Perdigão falava da perda do Mundial como um Waterloo brasileiro.

É curioso como, a princípio, não encontramos na crônica da época acusações diretas contra o goleiro Moacyr Barbosa. Os debates mais árduos discutiam se a responsabilidade sobre o gol era do lateral Bigode ou do zagueiro Juvenal.

A derrota em 1950, inclusive, não representou o fim de Barbosa na seleção. O goleiro ainda foi convocado para a Copa América de 1953. Pouco depois do torneio, Barbosa quebrou a perna em um Vasco X Botafogo, em um choque violento com o atacante Zezinho. As notícias dos jornais do período indicam que centenas de torcedores foram visitar Barbosa no Hospital dos Acidentados, durante a recuperação da lesão. Há quem garanta que, se não fosse por isso, o goleiro do Vasco da Gama teria grandes chances de ser convocado para disputar a Copa do Mundo de 1954.

O que as fontes indicam, portanto, é que a desgraça em que caiu Barbosa, em virtude da derrota de 1950, é mais tardia do que imaginamos. Aos poucos foi se produzindo o discurso de que um frango do goleiro teria custado o título mundial. Tal sentimento não foi imediato.

Um marco da elaboração desse discurso foi a eliminação da seleção brasileira na Copa de 1954, após a pancadaria que marcou o jogo contra a Hungria. Ali discutiu-se largamente uma possível fragilidade emocional de atletas negros. Instintivos, pouco racionais, estes seriam incapazes de suportar as pressões do certame. O racismo contido e explicitado nessa perspectiva, aos poucos, voltou-se contra Barbosa. A ideia de que a posição de goleiro exigia um equilíbrio emocional inviável para os negros encontrou no goleiro um personagem ideal. Barbosa passou, cada vez mais, a carregar a cruz do Maracanazo.

Uma história a ser recontada

Quando Carlos Alberto Parreira proibiu o goleiro de visitar os jogadores da seleção brasileira em 1993, antes do jogo contra o Uruguai que definiria a classificação para a Copa do Mundo de 1994, toda a carga simbólica do racismo que vitimou Barbosa apareceu em sua face mais cruel.

Goleiro espetacular, campeão carioca em 1945, 1947, 1949, 1950, 1952 e 1958; campeão sul-americano de 1948, Moacyr Barbosa Nascimento recebeu quando jogador, de grande parte da torcida brasileira, todo o carinho que merecia. Foi um ídolo incontestável. Vitimado, entretanto, por um debate atravessado pelo racismo, aos poucos, viu-se responsabilizado pela mais surpreendente derrota da história da seleção brasileira.

Barbosa morreu, em 7 abril de 2000, sem a redenção que merecia. Acusado pelo frango que nem se sabe se frango foi, merece ter a sua memória recuperada para a história do futebol brasileiro como aquilo que de fato representou: um dos maiores goleiros que passaram pelos nossos campos desde que, por aqui, alguém começou a chutar uma bola.

Viva ele!

Luiz Antônio Simas
Historiador, professor e autor, entre outros livros, de "Ode a Mauro Shampoo e Outras Histórias da Várzea" e "O corpo encantado das ruas". Vencedor do Prêmio Jabuti (2015).

1 comentário

  • Quero parabenizar o professor Simas pelo ótimo artigo.
    A gente ouve falar muito dessa partida e o que se nota é a tradicional mania de achar culpados para justificar derrotas. Foi assim na “tragédia do Sarriá” em 82, nas derrotas para a França em 86 e 98 e no humilhante 7 X 1 de 2014, só para citar as mais marcantes.
    Trata-se de uma característica do torcedor brasileiro de não reconhecer a superioridade do adversário. Apesar de não se tratar do mesmo elenco, o Uruguai era bicampeão olímpico e o primeiro campeão mundial de futebol, algo que parece ter passado desapercebido pelos ufanistas jornalistas da época, antes e até mesmo depois da decisão. Parece que os únicos que não entraram no clima de “já ganhou” eram os jogadores e a comissão técnica do Brasil.
    Toninho Cerezo, Zico, Sebastião Lazaroni, o goleiro Júlio Cesar e mais recentemente Fernandinho já sentiram o peso de serem responsabilizados por fracassos da seleção brasileira em Copas, mas acredito que nada comparável ao injusto fardo que Barbosa carregou até o final de sua vida.

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